Thursday, April 12, 2007

Escrevendo Ficção com The Gotham Writers' Workshop (Lição 1) - parte 2

(continuação...)
Traduzido por: Henry Alfred Bugalho

Lição 1: A Verdade sobre Ficção - parte 2

Nós nos importamos com os Personagens

Personagens são, literalmente, o elemento humano no interior das histórias -- a parte que vive, respira, ri e chora. Não existe uma história que não possua, pelo menos, um personagem, mesmo que este seja um cavalo, como no conto de Bruce Jay Freedman, "Post-Time", ou computador HAL, de 2001: Uma Odisséia no Espaço de Arthur C. Clarke.

Quando nos apaixonamos por uma história, na maioria das vezes, amamos os personagens, não detalhes do enredo, diálogos brilhantes ou o estilo original do autor. O que nos lembramos das histórias são os personagens, e são por eles que voltamos a ler. Nós nos comovemos com a condição fundamental deles, porque ela é também a nossa. Eles são pessoas, e nós somos pessoas. Nós nos relacionamos.

Talvez a melhor razão para lermos ficção seja conhecer personagens. Ao lermos sobre pessoas em ficção, nós vislumbramos a natureza humana. Estranhamente, ficção pode nos ofertar tais vislumbres com maior propriedade do que a vida cotidiana.

Por exemplo, o comportamento de sua colega de trabalho pode não fazer sentido para você, pois você não sabe, exatamente, como ela cresceu, muito menos o que ela está pensando em determinado momento. Todavia, é possível compreender um personagem complexo, como Sethe, na obra Beloved de Toni Morrison, exatamente porque nos é dado acesso ao passado dela e à sua vida interior. Este vislumbre pode, por outro lado, ajudar-nos a compreender e nos comover com nossos próximos, humanos de carne-e-osso, melhor. Até mesmo àquela intrigante colega de trabalho.

Você já leu o romance O Apanhador no Campo de Centeio de J. D. Salinger? Você se lembra dele? (É claro que sim. É um dos mais idolatrados livros de todos os tempos.) Tudo bem, agora, do que você se lembra do romance? Você pode resumir o enredo? Provavelmente não. Você consegue descrever Holden Caulfield? Sim! Talvez, você se lembre de seu chapéu vermelho de caça (ele o usa virado para trás) ou como ele chama tudo de "enrolação" (phony). Você se lembra como ele se relaciona com a irmã pequena, Phoebe, e o intenso sentimento de solidão de Holden, expressado por sua identificação com os patos do Central Park? Muitos leitores sentem como se houvessem conhecido, de fato, Holden Caulfield, um dia. Talvez você também tenha sentido isto.

Mesmo que você tenha lido O Morro dos Ventos Uivantes duas ou três vezes, pode ser que você tenha se perdido em tudo que acontece, especialmente na complicada segunda parte. Mas você nunca, nunca se esquecerá do ardente amor entre Catherine e Heathcliff.

Já mencionamos Dickens antes. Ao lado do dramaturgo Shakespeare, ele é, provavelmente, responsável pelo maior número de personagens marcantes em língua inglesa. Pense em Sra. Havisham de Grandes Esperanças, assombrada pelo malfadado dia do casamento. Ou Madame Dafarge, notoriamente tricotando enquanto a Revolução Francesa nascia, em Uma História de Duas Cidades.

Esta atração pelos personagens é o motivo pelo qual escritores bem-sucedidos de romances policiais trazem novamente o protagonista várias vezes. Esquecemo-nos rapidamente do enredo intrincado de qualquer romance de mistérios, mas nós nos lembramos de Sam Spade, Kinsey Millhone e Easy Rawlins -- e queremos passar mais tempo na companhia deles.

O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald agrada de várias maneiras, mas, para a maioria dos leitores, o aspecto mais marcante e divertido deste grande romance são os personagens. Nos primeiros três capítulos, há um desfile de personagens que você pode gostar ou não, mas aos quais dificilmente você se esquecerá tão cedo.

Há Jay Gatsby, um dos mais inesquecíveis personagens em toda literatura. Se você conseguiu chegar no capítulo 3, há grande chance de que este homem tenha gravado um forte impressão em você, mesmo que você tenha tido acesso a poucos vislumbres dele. Ao continuar lendo o romance, perceba quão dimensional e fascinantes este personagem se torna, capítulo após capítulo. Ele é simpático, mas de algum modo trapaceiro. Ele é ricamente descrito, mas nunca completamente conhecível. Ele é muito humano, e muito maior que a vida. Podemos encontra Gatsby no mundo ao nosso redor. Ele é uma lenda americana -- o self-made man. Hoje, é difícil não pensar em Gatsby quando se ouve sobre celebridades como Ralph Lauren, Martha Stewart ou Bill Gates.

Quando você terminar de ler o livro, mesmo então, Gatsby não será esquecido. Ele se debruça sobre a memória, de pé no gramado, abrindo os braços em direção à luz verde no fim do cais, sonhando sobre as infinitas possibilidades do futuro.

(continua...)

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3 comments:

timmandre said...

Henry, parabéns por essa bela iniciativa. Fiquei muito empolgado ao encontrar esse workshop aqui, traduzido e disponível pra gente. Confesso que não o conhecia, mas pelo que o pessoal comentou, parece ser um dos melhores do mundo. Aproveitando o embalo, quero deixar aqui as respostas relativas às questões do debate da primeira atividade.

Abraço,
André Timm


Por que eu gosto de ler ficção? Não consigo racionalizar isso. Simplesmente adoro sentar e mergulhar nas histórias, ir conhecendo os personagens, me envolvendo na trama.


Você concorda que os personagens são, geralmente, o aspecto mais marcante duma obra de ficção?

Concordo plenamente. Personagens são a força motriz de qualquer história. O curioso é quem nem sempre precisam ser seres vivos. Recentemente, li um livro chamado A Voz do Fogo, de Allan Moore. Achei genial pois cada capítulo se passa no mesmo local, mas em épocas diferentes, em ordem cronológica. Então, vemos o mesmo lugar, da pré-história à idade contemporânea, o que faz dele, praticamente, um personagem.


Por que você quer escrever ficção? Você já escreveu ficção anteriormente ou isto é algo novo para você?

Quero escrever ficção pois sou fascinado pelo processo de criar mundos e personagens que outras pessoas podem passar a conhecer. Gosto da subjetividade que a ficção pode propor, aquilo que não precisa ser dito mas está ali, nas entrelinhas. Já me arrisquei em alguns contos. Consegui publicar dois deles em coletâneas de novos artistas. Um pela revista Ficções, da editora 7 letras e outro através de um workshop do senac, que resultou numa publicação com trabalhos desenvolvidos pelos alunos durante o curso.

timmandre said...

Pense em três ou quatro de suas obras de ficção favoritas.

- Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
- Do amor e outros demônos, Gabriel Garcia Marques
- Harry Potter, de J. K. Rowlling


2. Para cada uma, diga o personagem que você acha ser mais marcante.

Em ensaio sobre a cegueira, considero a mulher do médico o personagem mais marcante; Em Do amor e outros demônios, a menina Sierva Maria de Todos los Ángeles; Em Harry Potter, o próprio Harry Potter.

3. Escreva alguns aspectos que fazem deste personagem marcante.

A mulher do médico é um personagem forte, uma mulher corajosa, que chega a fingir-se de cega, em meio a uma epidemia desconhecida, para não abandonar o marido. Torna-se um tipo de líder, primeiro por ver entre os cegos (mesmo que eles não saibam), mas muito por sua personalidade.
A menina Sierva Maria de Todos los Ángeles tem uma personalidade marcante desde criança. Cabelos vermelhos de metros e metros de comprimento. Criado em meio aos escravos, é arredia e agressiva, mas ao mesmo tempo carinhosa e frágil. O fato de acharem que ela está possuída pelo demônio, acaba acentuando muito de suas características.

Finalmente, Harry Potter é um personagem o qual eu considero apoiado numa série de arquétipos, uma das razões porque, em minha opnião, faz tanto sucesso. Um garoto orfão, criado pelos tios malvados, que aos 11 anos de idade, descobre que é um bruxo. Daí em diante sua vida muda. Passa a ter conhecimento de um mundo completamente novo, ingressa numa incrível escola de magia e passa a viver inúmeras aventuras. Harry, ao mesmo tempo que é um gatoro carente, ressentido pela morte dos pais, também é extremamente corajoso, astuto. Junto a tudo isso, ele mantém as características de uma criança normal. Se mete em confusões, não gosta muito de estudar e ama o Quadribol, um esporte maluco que é uma entre as muitas invenções geniais de J. K. Rowlling no mundo de Harry Potter.

timmandre said...

1 . Quais histórias você escolheu, quais personagens, e o que você gosta neles?

Acabei respondendo no comentário anterior.


2. Você acha que aquele personagem é a razão principal pela qual aquela obra lhe agrada tanto?

Não diria que é somente ele, mas sim o conjunto de personagens que compõem as obras. Todos os livros citados, na minha opnião, têm personagens fantásticos, tão bons quanto os que eu citei.


3. Você poderia pegar aquele personagem e escrever uma outra história com ele?

Certamente, ainda me falta competência para escrever com a mesma qualidade dos autores citados. Mas, com certeza, todos os personagens dão margem para que possam ser inseridos em outras histórias.

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