Thursday, May 03, 2007

Escrevendo Ficção com The Gotham Writers' Workshop (Lição 5) - parte 2

(continuação...)

Lição 5: Como Revelar Contando - parte 2

Personagens Contam

Personagens em ficção estão freqüentemente contando sobre outros personagens. Mas personagens não são sempre confiáveis quando se trata de contar a verdade. Afinal de contas, eles são apenas humanos (um tipo de). Por isso, eles podem nos contar algo sobre os outros personagens da história que não seja exatamente preciso. Até mesmo narradores podem ser culpados disto.

A certa altura de "Catedral", o narrador conta sobre a esposa tardia de Robert, Belulah:

"Então, me encontrei pensando sobre a vida miserável que esta mulher deveria ter. Imagine uma mulher que jamais poderia ser vista pelos olhos de seu amado. Uma mulher que seguiria dia após dia, sem nunca receber nem mesmo um elogiozinho de seu amado."

Isto é verdade? Provavelmente não. Pelo que descobrimos sobre Robert, parece que ele é o tipo de pessoa que enche a mulher de elogios, mesmo que não possa vê-la. Podemos supor que Robert seja um marido afetuoso e que, na verdade, deve fazer sua esposa muito feliz. Talvez o narrador não consiga entender isto por ele próprio não ser um marido exemplar. O leitor sente que Robert pode "ver" Belulah bem melhor do que o modo como o narrador "vê" sua esposa.

No exemplo acima, conta-se através de narração. Mas personagens também podem contar sobre outros personagens no diálogo. O que eles dizem é sempre verdade? Às vezes, sim; noutras, não. Assim como na vida real, não há jeito fácil de se saber.

Quando Robert diz:

- Bub, eu sou um escocês de verdade.

Nós temos a impressão de que ele está contando a verdade sobre suas preferências com relação a bebida. E quando ele diz:

- Querida, eu tenho duas TVs. Uma colorida e outra uma relíquia em preto-e-branco. O engraçado é que, quando eu ligo uma TV, e eu sempre a ligo, eu ligo a colorida. Engraçado, não acha?

Isto é um pouco mais difícil de se acreditar -- como ele consegue saber a diferença? Porém, após descobrir um pouco sobre Robert, temos a impressão de que esta também é uma informação precisa.

E sobre esta discussão acalorada entre o narrador e sua esposa:

- Eu não tenho amigo cego algum - ele diz.
- Você não tem amigo algum - ela diz. - E ponto-final.

A esposa está falando a verdade absoluta sobre o marido? Bem, podemos imaginar que este homem não tenha muitos amigos, que ele não é o cara mais amigável da cidade. Ela deve ter passado de raspão. Mas ele deve ter alguns amigos, pelo menos um ou dois que sejam tão bitolados e miseráveis como ele. A esposa deve estar exagerando um pouco quando ele diz que ele não tem amigo algum. Ela está brava naquele momento e tentando ficar por cima da carne-seca. Você sempre conta a verdade sobre as pessoas que você conhece? Hum, talvez não.

A falibilidade do que os narradores e personagens "contam" sobre outros personagens ajuda a aumentar o nível de interesse duma obra de ficção. Ao invés de receber na boquinha a verdade pronta, o leitor precisa tirar suas próprias conclusões sobre o que está sendo contado. Em tais situações, também estamos aprendendo sobre os personagens que estão contando, além daquele que está sendo o objeto. Se é verdade ou não, podemos sentir a frustração e o ressentimento, quando a esposa proclama:

- Você não tem amigo algum. E ponto-final.

Contando como Contar

Talvez esta técnica de contar esteja começando a parecer complicada, mas não é nada que você não possa dominar em sua própria ficção.

Voltemos aos nosso personagem, Maria Rialto (antigamente conhecida como Mulher Misteriosa). Se você a estiver usando numa história, você pode contar sobre ela de vários modos.

Você, como narrador, pode escrever algo assim:

"Apesar de Maria Rialto possuir uma boa dose de gentileza, ela era uma tímida incurável. Quando criança, ela era expansiva e jocosa, mas, por volta dos onze anos, ela se tornou tímida, o que, através dos anos, se acentuou drasticamente."

Bom, você nos contou bastante sobre Maria, e de mareira bastante eloqüente.

Outros personagens também pode nos contar algumas coisas sobre Maria também. A mãe dela diz:

- Meu bebê não é tímida, ela é apenas quieta.

Um colega da livraria na qual ela trabalha diz:

- Maria é tão grossa. Ela nunca me dirige a palavra.

Outra pessoa pode dizer:

- Que esquisitona!

Quem está certo? Talvez todos eles, talvez nenhum. Lembre-se, quando outros personagens estão contando, não é muito fácil saber onde jaz a verdade. Você também pode perceber que descobrimos algo sobre cada um dos personagens pelo que eles dizem, ou contam, sobre Maria.

O que Maria contaria sobre si mesma? Se você estiver realmente curioso, talvez você possa indagá-la.

Debate

Após ler a dissertação, tente responder algumas ou todas as questões seguintes:

1. Há um meio mais poderoso para revelar os personagens além de contar sobre eles?

2. Você prefere uma história contada pelo escritor ou por um narrador em primeira pessoa (que é um personagem na história)?

3. Quando as pessoas contam sobre elas mesmas, como você determina se deve ou não acreditar nelas?

Atividade de Pesquisa

Lição 5: Como Revelar Contando

Visão Geral

Após completar esta atividade, você terá refletido sobre o espaço que há entre o que as pessoas (e você) contam e não contam sobre elas mesmas, ao explorar anúncios pessoais e criar um para você. Isto pode conduzir à criação de vários personagens ficcionais.

Tempo Estimado

Levará em torno de 45 minutos para completar esta atividade.

O que as Pessoas Contam sobre Elas Mesmas

Sempre há um espaço entre o que dizemos aos outros sobre nós mesmos e a verdade. Às vezes, não somos cientes deste espaço. Noutras, somos.

1. Procure por anúncios pessoais em jornais, revistas, internet (digite "anúncio pessoal" num buscador e você receberá várias respostas). Anúncios pessoais estão por todo lado, hoje em dia.

2. Leia o que as pessoas dizem para se promoverem. Talvez estas coisas sejam verdadeiras, talvez não. O que resta? Tenha em mente que todas estas pessoas podem ser usados como base para personagens ficcionais.

3. Escreva 3 ou 4 coisas que você diria para se promover num anúncio pessoal.

4. Escreva 3 ou 4 coisas que você omitiria (ou talvez mentiria, caso este assunto surgisse num primeiro encontro). Você pode aprender algo sobre si mesmo que possa ser utilizado num personagem.

Debate

Após completar esta atividade, ponha a resposta para algumas ou todas as questões seguintes:

1. Você questiona a verdade do que você lê sobre outras pessoas?

2. Você vê alguma diferença entre o que você diria ou não diria sobre si mesmo? Caso sim, que tipo de vislumbre isso lhe dá sobre o que as pessoas dizem delas mesmas?

3. Você descobriu algo em algum anúncio pessoal (seu ou de outros) que tenha despertado a idéia para algum personagem interessante?

(Ir para a Lição 6)

Ir para o Índice

3 comments:

Noin said...

Estou aprendendo muito com esse workshop ^^ Foi uma bela iniciativa essa de traduzi-lo! Esta de parabéns.

Venho lendo dois de seus outros blogs e posso dizer que virei sua fã ^.~

Henry Alfred said...

Obrigado, Noin.

Este curso é realmente muito bom, mesmo que não se utilize as técnicas propostas.

E fique ligada, pois quando eu acabar de escrever "O Covil...", acho que vou começar a publicar alguns dos meus romances que já estão prontos.

Abraços.

JLM said...

Sugestão:

Coloque o negrito no plural: "3. Quando as pessoas contam sobre elas mesma, como você determina se deve ou não acreditar nelas?"

1 abraço.

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