Thursday, October 09, 2008

A Atualidade do Conto

O conto é provavelmente a primeira forma narrativa da Humanidade. Sua origem se confunde com a necessidade intrínseca do ser humano de contar uma história a seus pares.
Tudo começa com uma história, o que há para ser contado, o enredo. O conto é curto o suficiente para entreter e não entediar quem o ouve ou lê, mas longo o suficiente para ocupar o tempo dos ouvintes/leitores.

Esta unidade temporal é a base do conto: uma história, um evento, com brevidade.
Mas os gêneros longos, como a epopéia e, posteriormente, o romance, precipitaram o conto a um poço de desprezo. A brevidade da forma se tornou sinônimo de frivolidade; a unidade serve para acusação de ser uma forma simplória.

Quase todo escritor canônico, por mais que tenha se aventurado a escrever contos, necessitou duma obra longa para legitimar seu talento. São raros os exemplos de autores meramente contistas, e podemos incluir Maupassant, Pushkin, Borges e Dalton Trevisan nesta lista, mas mesmo estes também tiveram de ceder às obrigações de gêneros mais longos.

E é a ilusão de facilidade que motiva vários escritores iniciantes a escreverem contos; na verdade, basta produzir um texto de duas ou três páginas para poder batizá-lo de conto. As reflexões teóricas de grandes autores também não contribuem para uma definição consensual, por isto, chegou-se à conclusão de que conto é qualquer coisa de indefinível, que apenas o autor é quem possui o privilégio de afirmar se um texto é conto ou não.

Os norte-americanos são bastante pragmáticos, estipulam o limite máximo do conto em vinte mil palavras; os latino-americanos são bem mais românticos, apresentando rebuscadas teorias sobre o conto, sempre lançando a questão e solução para o nível subjetivo.

Mas todos parecem concordar em um ponto: o conto é uma unidade, fala dum único assunto. Para termos uma idéia do que isto significa, basta vislumbrarmos a vida duma pessoa — nascemos, crescemos, freqüentamos uma escola, muitos se casam, têm filhos, vão ao trabalho, envelhecem, morrem... —; se apanharmos a totalidade desta vida, ou boa parte dela, podemos escrever um romance, no entanto se apanharmos apenas um destes aspectos, casar-se por exemplo, ou parte deste aspecto, então poderemos escrever um conto.

O romance abrange uma totalidade, que pode ser a soma das partes da vida dum personagem, ou a soma de trechos das vidas de vários personagens; o conto, por sua vez, procura a singularidade, o ponto crítico, o momento único. O romance é um filme, precisa do tempo para contar sua história; o conto é uma fotografia, apresenta toda sua mensagem quase que instantaneamente, agarra o leitor na primeira linha e o liberta na última, não tolera arestas, não pode ser cansativo.

Durante milênios, o conto possuiu um papel acessório. Tratava-se dum exercício literário, no qual os autores podiam testar suas habilidades narrativas. Contudo, da metade do século XX em diante, o conto começou gradativamente a assumir um novo papel.

O romance, enquanto divertimento burguês, exige tempo e contemplação. O leitor se recolhe a seu quarto, ou senta-se numa poltrona e por horas mergulha naquele mundo.

Mas o conto está de acordo com o ritmo do mundo industrial, frenético, em constante mudança. O leitor encontra um conto que lhe agrade, lê-o por alguns poucos minutos e parte para o próximo texto. O leitor contemporâneo anseia por mais informações, pela maior quantidade de dados que possa adquirir no menor tempo. O conto supre esta necessidade; é dinâmico, rápido e facilmente assimilado. Pode até causar grande transformação num leitor, mas a sua pequena extensão promete uma acessibilidade.

Geralmente, os melhores contos são justamente aqueles que não são fáceis, que mesmo consumindo alguns poucos minutos, acabam por reverberar por dias ou anos na mente do leitor.
Poucas formas são tão atuais quanto o conto, e poucas possuem tanto potencial de exploração criativa e tamanhas exigências para o autor.

O desafio do contista é falar muito em poucas linhas, o do leitor, compreender o verdadeiro valor da narrativa curta.

Publicado na Revista SAMIZDAT

4 comments:

Thaís V. Manfrini said...

Ótima explanação.

Felipe Attie said...

Cara, você conceituou perfeitamente o que eu faço. Sempre me encantei por contos e crônicas e por isso, fiz desses estilos, o meu estilo. Por outro lado, também sempre me senti rebaixado, até por mim mesmo, por nunca ter escrito um romance, ou algo parecido. Sempre fui breve, direto, como um soco na nuca.

Gostei da explicação. De agora em diante, direi com orgulho que escrevo fotografias. www.felipeattie.com — pula lá e dá uma olhadela no que eu faço. Até...

Emilia Freire said...

Adorei ler o artigo. Como aspirante a amadora (ainda), compreendi melhor a importância do "recado". http://retratocontado.blogspot.com
Abs,

AyméeLucaSs said...

Encontrei a minha escola no seu blog!
Tudo que eu preciso saber tem aqui. Todas as minhas perguntas sem resposta. A sede de escrever é tanta, mas nao sabia o que fazia por completo, e agora estou mais consciente.
Uma vez escrevi um poema sem pensar no que estava fazendo, so escrevia o que a minha mente via, desejava, e no final depois que postei e reli eu vi que tinha uma moral da historia no que escrevi, tinha fundamentos interpretativos que te levava a uma conclusao do que o mundo pode te oferecer se nao soubermos retirar dele coisas boas, e eu achei tao verdadeiro a minha historia imaginaria. rsrs Queria poder te mostrar se me permite a intromissao e desde ja me desculpe por ser tao invasiva, mas como disse antes venho buscando resposta das coisas que penso e coloco em uma folha em branco, como li no seu blog, dando vida aquela folha que pedia a mim de rabisca-la.
http://wwwtempo-livre.blogspot.com/2010/07/era-apenas-mais-um-sonho.html
Em dois dias aprendi tanto com voce com seu trabalho, voce ensina com simplicidade.

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