Monday, January 23, 2012

Um Escritor no século XXI, entre a cruz e a espada


Eu acredito que todas as pessoas possuem algum tipo de talento. Em maior ou menor grau, todos nós sabemos fazer alguma coisa, ou várias coisas, bem.

Alguns sabem desenhar, outros dançar, outros cozinhar, outros cantar, falar bem, tocar instrumentos, jogar futebol, nadar, escrever, e assim por diante. Isto não quer dizer que sejamos os melhores perfazendo estas atividades, nem que nos profissionalizaremos nelas, pois talento não é vocação.
Gostar de fazer algo não quer dizer que estejamos dispostos a viver daquilo, pelo contrário, muitas vezes, preferimos fazer o que gostamos apenas como um hobby, pois trabalho cansa, exaure, tem contratempos e aborrecimentos e, às vezes, até deixamos de gostar daquilo justamente por ser um trabalho.

O ser humano é assim, um poço de contradições.

Historicamente, a Arte era um passatempo, produzida em momentos de ócio. Sugerem que as primeiras obras de arte, feitas por homens pré-históricos em paredes de cavernas, faziam parte do ritual de iniciação à idade adulta, quando os jovens se retiravam para o isolamento e tinham visões extáticas, retratando-as em arte. Talvez disto que derive a concepção que criar é obra de inspiração, de um estágio para além do humano, quando temos acesso aos deuses, ou a algum influxo divino.

Arte como profissão é resultado do Renascimento, graças ao mecenato de aristocratas europeus e que permitiram o florescimento de alguns dos maiores gênios da humanidade. Qualquer um que tenha tido a oportunidade de viver exclusivamente de sua arte, de poder dedicar seu dia inteiro apenas à criação, já deve ter descoberto como isto faz uma visível diferença qualitativa. Não ter de dividir sua atenção e preocupações com outras cotidianas, como insuportáveis colegas de trabalho ou monótonas tarefas burocráticas, é um peso a menos nas costas de um artista.
A criação exige tempo e dedicação; exige cuidado.

No entanto, a compreensão da Arte como indústria é extremamente recente, fruto da Revolução Industrial e da ascensão da classe burguesa. Ser patrocinado por um aristocrata para criar é bastante diferente do que ter de conceber produtos para o consumo das massas. Um Da Vinci poderia trabalhar sob encomenda enquanto realizava vários outros estudos e projetos paralelos às custas de seus mecenas, enquanto um artista da era industrial precisa ter em vista a comerciabilidade de sua arte, ou viver à margem do mercado, produzindo nas sombras.
Mesmo assim, para aqueles nos lugar certo e na hora certa, a inserção neste mundo era muito menos dolorosa. Num período em que Arte era um deleite das elites, como foi até boa parte do século XX, a concorrência para inserir-se neste universo era muito menor e, uma vez dentro, não era difícil consolidar uma carreira que duraria décadas.

Enfim chegamos ao século XXI, o palco de um das maiores revoluções culturais e intelectuais desde a invenção da imprensa por Gutemberg há quase seiscentos anos. Nunca antes se viu tantos pretensos artistas, músicos, cineastas, escritores, atores e tudo o mais que se possa nomear.
Todos os nossos pequenos talentos, que anteriormente relegaríamos apenas ao nosso convívio doméstico, à pianola no canto da sala, ao violãozinho com uma meio dúzia de amigos, aos livros e mais livros escondidos nas gavetas, às fotografias amarelecidas em álbuns que ninguém via, tudo isto e muito mais reclamou seu lugar ao sol. Tudo aquilo que teríamos vergonha de mostrar aos outros, incertos de nosso talento artístico, são postos à prova no fogo da exposição.

Antes, uma carreira era feita de inúmeros fracassos, muitos que jamais seriam vistos pelos demais, tijolos a tijolos, até o eventual sucesso.
Hoje, todos os nossos fracassos estão por aí, disputando espaço com os raríssimos sucessos, com as raríssimas obras extraordinárias, que geralmente são sufocadas por esta avalanche cultural.

Estamos presenciando a morte do artista profissional, diante de uma indústria cultural que tem se debatido agonizante por um último alento. Este é o fim do escritor profissional; somos todos diletantes, uma vez mais.

O jovem pré-histórico se recolhia ao isolamento em seu rito de passagem e criava. Nós, artistas do século XXI, realizamos o caminho oposto, somos forçados para fora de nosso isolamento criativo, obrigados a interagir em tempo real com o nosso público.

Quanto do nosso esforço, que poderia se destinar à criação, não se esvai nesta interação infinda? Quanto tempo realmente temos para criar?

O tempo de maturação e aperfeiçoamento se foi, nosso lema hoje é output, quanto mais produzimos, maior é a visibilidade, quanto maior a visibilidade, maior tem de ser a produção, num inesgotável e banal ciclo de autorrepetição.

Entusiasma-me o que o futuro pode trazer, pois dependo disto. Também sou um escritor da era digital, que conquisto meus leitores dia após dia através desta interação constante.
No entanto, também tenho medo. Sei que veremos cada vez menos grandes artistas, restando apenas algumas grandes obras. Muitas carreiras jamais se consolidarão, a maioria de nós jamais terá a oportunidade de se profissionalizar, jamais ganhará um centavo com sua escrita.

O sonho de uma carreira dedicada somente a escrever, de ver suas obras nas prateleiras das livrarias, das noites de autógrafos e das primeiras edições raras está morrendo.

Restará apenas uma legião de diletantes com bem pouco para dizer de interessante?

Prefiro pensar que não...

1 comment:

Ederson Cruz said...

Olha aew..falow bem amigo. É exatamente isto que vem martelando por muitos anos a minha vida como artista, trocar meus momentos inspiradores de emoção como artista pelo dinheiro.., e somente dinehiro..e mais dinheiro, atenção..competição..do melhor lugar..e mais dinheiro. Quando isto se torna prenssadamente pesado no meu dia a dia, me sinto triste e envergonhado, porque de certa forma considero este dom algo divino, pela qual necessito trabalhar meu espirito interior, e ajudar na evolução da historia da humanidade de algum jeito.
No mais...gostei muito do texto, 95% do que foi falado consegui compreender. Abraço e obrigado por compartilhar a idéia.

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