Wednesday, February 15, 2012

O papel da imprensa e da mídia na carreira de um escritor. O que muda?


A primeira vez que um grande jornal, revista, rádio ou emissora de TV o contacta para uma entrevista, você pensa que sua vida mudará.
Se você é um autor independente ou um blogueiro, tem expectativas que aquela reportagem atraia a atenção dos editores e, quem sabe, ajude-o a fechar um bom contrato.
Quem não assistiu ao filme "Julie e Julia", sobre uma blogueira de culinária que faz sucesso após aparecer num jornal, recebendo ligações de agentes literários, editores e de outros jornais, e não sonhou com esta mesma cena?

Se você é um autor publicado comercialmente, espera que uma boa crítica estimule os leitores a comprarem seu livro, dê mais visibilidade a sua obra e que talvez você consiga competir com os grandes sucessos do momento.

Desde crianças, somos bombardeados pela influência onipresente da mídia, através da televisão, da rádio, do cinema, da internet, dos jornais, das revistas, dos livros, da publicidade, ao ponto de acreditamos fielmente neste novo deus e, que no dia em que fizermos parte dele, nossa carreira se transformará milagrosamente.

Mas, no Brasil, milagres desta espécie raramente ocorrem, se é que um dia ocorreram. Em termos práticos, a imprensa não afeta em nada, nem para positivo ou negativo, com raríssimas exceções.

Mamãe, olha eu na TV!


O brasileiro é um povo historicamente movido pela televisão. É, ou era até o advento da internet, o poder supremo de comunicação.
Uma novela da Globo era capaz de parar a nação no último capítulo, e a chamada do plantão extraordinário tem o poder de deixar todos em silêncio, com a mão sobre a boca, tensos, para saber qual pessoa importante morreu ou qual é a catástrofe do dia.
A TV sempre ocupou o lugar dos livros, dos jornais impressos, das revistas e das rádios na maioria dos lares brasileiros e, de fato, ainda é a única mídia capaz de transformar uma carreira ou acabar com uma reputação.
A primeira entrevista que dei foi para a Globo, para um programa específico para a Globo Internacional, ou seja, que passaria em cento e tantos países, menos no Brasil!
Naquele instante, eu e minha esposa decidimos que estava na hora de transformar o nosso blog em livro e começar a vendê-lo. Tínhamos certeza que muita gente assistiria ao programa e se interessaria em comprar o nosso produto.
E estávamos certos: posso dizer que ali, em janeiro de 2008, foi que minha carreira como escritor profissional realmente começou. Os oito anos antes havia sido apenas um ensaio.

Mesmo que aparecer na TV e em um programa de influência, como um telejornal, talk-show ou algum programa de auditório não transforme a carreira de ninguém, certamente dará bastante visibilidade e atrairá milhares de curiosos.
Provavelmente você venderá uns dez ou vinte livros a mais do que o normal, ou um pouco mais se tiver sorte.
Seus amigos e parentes ficarão morrendo de orgulho e, por um dia, você será uma estrela.

Mas, na manhã seguinte, tudo retornará ao normal.

Ouvi na rádio


Seus avós e talvez seus pais cresceram sob a influência da rádio, que era o meio de comunicação mais importante até que a TV roubou toda a atenção. Muita gente ainda ouve rádio no carro, principalmente quando estão presos em engarrafamentos-monstros, e vários programas televisivos, como jornais, também acabam sendo transmitidos em FM ou AM.

No entanto, de fato, sua influência é incrivelmente inferior, mesmo de uma grande emissora de rádio, do que de qualquer programinha de TV.

Seu público não aumentará e é improvável que você venda um exemplar sequer por ter falado na rádio, a não ser que você seja o radialista e possa vender o seu peixe todo o santo dia.
Imagino que isto ocorra por algumas razões: primeiro porque a audiência não é tão grande quanto para a TV, obviamente; depois, porque se o sujeito está escutando a entrevista de dentro do carro, ele não vai parar na primeira esquina para anotar o nome do entrevistado e o título do livro, e correr para a livraria mais próxima.
A notícia entrará por um ouvido e sairá pelo outro.

O bom é que os seus amigos e parentes também ficarão orgulhosos de você!

O jornal de domingo enrolado embaixo do braço


Aparecer num jornal é uma sensação incrível, ainda mais se você ganhar uma reportagem de página inteira com a sua cara estampada nela, o que é raríssimo.
No entanto, não podemos nos esquecer que as tiragens da maioria dos jornais não são tão grandes assim, que eles tem influência regional (se desconsiderarmos os grandes jornais distribuídos nacionalmente) e que amanhã a sua cara estará embrulhandos copos para a mudança, ou servindo para forrar o cocô do totó.

Alguns curiosos procurarão por seu livro, mas não serão tantos assim. Se você der sorte e cair nas mãos de um repórter competente, o que você disse ou escreveu entrará quase literalmente na reportagem, mas se for um jornalista muito criativo, prepare-se para ler informações totalmente esdrúxulas, sem nenhuma relação com a realidade e você se questionará: "de onde saiu isto?!"

Eu lhe asseguro que ver escritas informações errôneas ou que você não disse também é uma sensação incrível. Mas não é nada boa...

Nas bancas de revista


Ao contrário do jornal, o tempo de vida de uma revista é um pouco maior, portanto, a visibilidade também.
Todavia, o número de leitores é geralmente muito menor e a repercussão é pouca, a não ser que seja uma revista muito especializada ou influente.
Você responderá uma porção de perguntas, crente que a reportagem sobre seu trabalho será enorme e, quando vir, saiu duas linhas com uma frase sua.
Mesmo assim, agradeça se esta frase foi realmente dita por você daquela maneira, pois não é garantia.

Sites e blogs


O que direi agora pode parecer inacreditável para muitos, mas um blog ou um site de sucesso pode dar muito mais visibilidade do que outros meios de comunicação tradicionais.

Atualmente, existem blogs que recebem centenas de milhares de visitantes ao dia e que, se este blogueiro resolver criar um link para o seu trabalho, esteja certo que algumas centenas ou até milhares de curiosos virão conferir.
É o complexo de dedo nervoso da internet: parece que somos obrigados a clicar em todos os links que aparecem em nossa frente, basta que tenha uma ou duas palavras que nos atraiam.

O ideal é que seja um interesse espontâneo, que aquele blog influente se interesse genuinamente por seu trabalho e queira recomendá-lo, mas é óbvio que este sistema pode ser burlado, seja pagando pelo link, seja realizando uma troca de links, isto é, você manda gente para cá, que eu mando gente para aí.
E na maior parte dos casos, este site ou blog possui um público-leitor bastante semelhante ao seu, e há chances maior daquele leitor também passar a seguir o seu trabalho.

Todavia, um blog muito influente dificilmente terá interesse em trocar links com um blog desconhecido, ou seja, você precisa já ter criado uma reputação antes de sair pedindo favores a todo o mundo.

Sites de jornais e revistas parecem ter uma abrangência maior de público do que as versões impressas, então, via de regra, você terá uma visibilidade melhor se aparecer num jornal online.

Contratando um assessor de imprensa

Alguns preferem contratar um profissional para ajudar a difundir sua imagem ou seu novo trabalho, "plantando" a pauta nos veículos de comunicação, mas não tenho ideia de valores ou de como funciona este serviço.
Todas as vezes que aparecemos na imprensa, foi porque os jornais, programas de TV, sites, rádios ou revistas se interessaram pelo nosso trabalho e nos contactaram.
Sugerimos pauta uma ou duas vezes, mas nestes casos não houve resposta alguma.

Para que serve aparecer na imprensa?

Você não venderá tantos livros a mais nem ficará tão conhecido ao aparecer através da imprensa, isto é fato.

No entanto, uma aparição atrairá outras, especialmente se for em alguma reportagem importante. Jornalista atrai jornalista, e vários deles correm para ler a seção "imprensa" dos escritores ou blogueiros que entrevistam, para conferir se o que você já disse é interessante.
Comumente, você não terá ideia de como eles descobriram seu trabalho, a não ser que você tenha escrito um livro:

1 - muito bom e premiado;
2 - muito bizarro ou polêmico;
3 - muito útil e interessante;
4 - muito engraçado e popular.

Inclusive, um livro pode ser as quatro coisas juntas, o que é muito melhor para divulgação de sua obra.

A maior vantagem de aparecer na imprensa é que, mesmo como autor independente, isto ajuda a consolidar sua credibilidade e é o reconhecimento dos formadores de opinião. Esta é uma das instâncias de legitimação de um escritor, e mesmo uma reportagem errônea (desde que não o denigra, é claro!) pode servir para divulgar o seu trabalho.

Inclusive, existem alguns casos famosos de autores que foram detonados pela imprensa, como Edgar Allan Poe e Paulo Coelho, que se consolidaram apesar ou até por causa deste massacre midiático.

Vai saber, às vezes até comprar briga com a imprensa também contribua, de alguma maneira, para uma carreira literária...

***

Caso você queira conferir algumas reportagens já feitas sobre o meu trabalho, você pode seguir para cá, ou aqui.

2 comments:

Marcia Soares said...

Caro Henry,

Trabalho a muitos anos no mercado editorial e acho que o seu texto oferece uma visão simplista do assunto. Já vi dezenas de autores que depois de ter seu livro divulgado na imprensa ganharam importante visibilidade e o melhor, retorno financeiro.

Discordo da sua opinião de que ser autor autônomo é melhor do que ser um autor publicado por uma editora. Acredite, não é, pelo menos por enquanto. Existe uma coisa fundamental para fazer que um livro chegue em todos os lugares até o seu leitor: a distribuição. Estar em livrarias de todos os estados, ( apesar das vendas pela internet) em pontas de venda importantes ajudam muito no resultado final.
O trabalho de um assessor de imprensa tambem pode fazer toda a diferença. Através dele voce pode ter acesso a jornalistas e veículos que dificilmente um leigo terá e com um enfoque específico. A curto prazo estamos vendo mudanças significativas com o mercado digital de livros, o relacionamento comercial dos mesmos e os novos rumos da divulgação com as redes sociais.
Na minha opinião, muita coisa vai mudar, mas até lá o autor precisa ter informações sobre o mercado e decidir o que irá satisfazer as suas expectativas literárias.
Abraços,
Márcia Soares
http://br.linkedin.com/in/marciasoaresassessoria

Henry Alfred Bugalho said...

Oi, Marcia.

É óbvio que se trata de uma visão simplista, pois só conheço um dos lados desta relação: a do entrevistado.

Não sou repórter, não trabalho em jornal, rádio, TV ou revista, aliás, não tenho ideia de como se determina que um assunto é mais interessante para aparecer na imprensa, quem estabelece esta hierarquia de importância que, na minha concepção, é bastante arbitrária.

Posso falar, isto sim ser correr o risco de ser simplista, sobre minha própria experiência com a imprensa, e também dos autores e blogueiros que conheço, publicados ou não, que já conseguiram um pouco de visibilidade, e é deste ponto de visto falo.

Bem, já sobre publicação independente, eu me resguardo o direito de pensar que a sua visão é simplista (e também um pouco retrógrada).
Eu pensava exatamente como você quando comecei escrever, e reconheço que é o sonho da maioria dos escritores ser publicado por uma editora comercial.
Mas assim como já ocorreu com o mercado da música e do cinema, este modelo comercial de editora-livraria está implodindo, a começar (sempre!) pelos EUA.
Várias lojas físicas (brick and mortar) estão falindo ou fechando as portas. Os adiantamentos, que antes era uma das maiores seduções do mercado editorial, estão sumindo e vários agentes literários estão caindo fora do jogo por causa destas transformações.
Os primeiros casos de best-sellers literários independentes estão surgindo, grandes autores estão abandonando suas editoras para publicar diretamente através da Amazon.com, e as regras deste mundo não são mais tão óbvias.
O Brasil, atrasado como o habitual, ainda está num processo de crescimento no mercado tradicional, afinal de contas, sempre fomos um país de analfabetos funcionais e que talvez somente agora está começando a descobrir o prazer da leitura, mas duvido que esta onda prossiga por muito tempo. Não sei se a moda dos ebook readers emplacará, mas com a febre dos Ipads e outros tablets, mesmo assim afetará.
Se eu fosse um autor publicado comercialmente, jamais poderia viver (sequer sobreviver) e pagar as minhas viagens com os royalties. Se hoje eu vendo quase 2000 livros ao ano, eu teria de vender 20.000 livros para ganhar o que ganho, e você deve saber que isto não é um número desprezível (aliás, nem 2000).
A vendagem média de livros de uma tiragem é de 200 exemplares, ou seja, se você é um autor independente, cobrando 30 reais por exemplar, a renda será de 6 mil reais, se você é um autor comercial, seu lucro será de 600 reais. Mesmo abatendo os custos de impressão, ainda assim o abismo é claro e assustador...
Talvez o modelo tradicional ainda funcione melhor com ficção, mas, com não-ficção, não sei se recomendaria ninguém a publicar comercialmente, principalmente se você tiver um público. Mas é certo que isto implica em assumir várias funções e arregaçar as mangas para trabalhar, o que muita gente não quer.

Abraços e obrigado pela visita.

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