Wednesday, April 18, 2012

Os abacaxis da publicação independente


Quem leu, nestes últimos anos, meus artigos sobre publicação independente, deve pensar que encarar a missão de escrever, editar, publicar, distribuir e vender seus próprios livros é a oitava maravilha do mundo.

Enfim, livres da exploração capitalista dos megaconglomeradores editorais, os autores poderão prosperar e enriquecer! Não é isto que você pensou?

Não que eu queira jogar um balde de água fria em seus planos de autopublicação, mas é importante saber onde se está enfiando o pé antes de enfrentar esta empreitada.

Geralmente, publicação independente não é uma escolha

Excetuando raríssimos casos, ninguém escolhe ser um autor autopublicado.

Antes de tudo, o autor independente é um excluído. Ele provavelmente já deve ter tentado publicar por uma editora comercial, enviando ingenuamente seus manuscritos a uma meia dúzia de editores, certo que seria descoberto naquelas pilhas de lixo literário.
A certeza que motiva qualquer escritor é a seguinte: "sempre haverá alguém que escreve pior do que eu...", e ele acredita que um bom editor saberá separar o joio do trigo, quer dizer, o trigo é ele, o joio são os outros.
Mas depois de receber algumas recusas, ou nenhuma resposta, o que resta para o nosso desiludido escritor?

1 - desistir da carreira literária;

2 - tentar novamente as editoras comerciais para fatalmente ser recusado uma vez mais;

3 - guardar na gaveta seus livros, contos e tudo o mais, para quem sabe ser um dia descoberto pela posteridade;

ou

4 - tentar a publicação independente.

Na maioria das situações, a publicação independente é um ato de desespero, quando o escritor já constatou que ninguém o descobrirá, e quando tudo que ele deseja, ansia, necessita, é que alguém leia seus livros.

É aí que começam a surgir as primeiras dificuldades.

Qualidade é o segredo

A competência do escritor é saber escrever. O escritor não é um diagramador nem um marqueteiro. Não é um contador nem um jurista. Não é um capista nem um ilustrador. Alguns escritores mal sabem utilizar a internet.

Todas estas atribuições estão dispersas no quadro de pessoal de uma editora, cada um cumprindo sua função. Isto é algo que o autor independente deve ter sempre em mente: ele será pau para toda obra, ele terá de fazer tudo por conta própria.

Qualidade é o segredo, jamais menospreze isto.
A escrita tem de ser irretocável, com o mínimo de erros ortográficos ou gramaticais possíveis, a qualidade gráfica do livro também tem de ser invejável, com uma capa atraente e deve existir um plano de vendas.
Se você não se sente apto para enfeixar todas estas funções, contrate alguém e negocie preços melhores. Frequentemente, você terá de desembolsar um extra para atingir certo patamar de qualidade, senão você sempre estará no nível dos amadores, daqueles que não são levados muito a sério.

No entanto, se você acreditar ser competente o bastante para cumprir todas as tarefas, arregace as mangas e faça o melhor que puder.

Solucionando os problemas

Como autor independente, você eventualmente acabará sendo o próprio vendedor de seus livros, negociando diretamente com o leitor.
Esta proximidade pode confundir a cabeça do prezado leitor, lançando a culpa dos males do mundo sobre o escritor.
Como não existe SAC no universo dos autores autopublicados, você terá de ouvir as reclamações e solucioná-las, na medida do possível, para contentar o leitor.
O lema "o cliente sempre tem razão" é seguido com rigor pelos brasileiros, mesmo quando eles não tem razão. Então você terá duas alternativas: 1 - ceder e tentar bajular o leitor até a exaustão, ou 2 - bater o pé e defender os seus direitos como "comerciante".

Já lhe adianto de ater-se a seus princípios e optar pela segunda opção não é nada fácil.

Mesmo se você tercerizar a impressão de livros, através de uma editora sob demanda, os leitores ainda virão reclamar com você se ocorrer algum problema na entrega, ou defeito de manufatura. Nestes casos, tudo que você pode fazer é reencaminhar a reclamação para o responsável, ou avisar o comprador que não é você quem resolve estes problemas.

Arcando com os prejuízos

Considere a publicação independente com a mesma seriedade de abrir um negócio. Você estará investindo tempo e dinheiro nesta brincadeira, com a meta de ter lucro/adquirir visibilidade para seu trabalho.
Todavia, sempre tenha em vista, principalmente em se tratando do ramo de venda de livros, que você pode amargar um prejuízo feio, se não conseguir vender um número X de exemplares.

Para calcular quantos exemplares mínimos você precisar vender para recuperar o dinheiro investido, não precisa ser um gênio da Matemática.
Basta somar o custo de impressão dos livros (se houver. Se for livro digital, já é uma baita economia), os custos do designer, do capista, e do revisor.
Depois, estabeleça o preço de capa do livro para venda aos leitores, subtraia o percentual para a livraria, caso você deixe exemplares em consignação, e divida o valor total de custo pelo preço unitário do livro.
O resultado será o número de exemplares que você precisará vender para reaver o investimento feito.

Por exemplo:
- 4000 reais para impressão do livro, mil exemplares em preto e branco (valor hipotético);
- 300 reais para diagramação e capa, precinho camarada feito por seu amigo que acabou a faculdade de design gráfico e precisa dar um up no portifólio dele;
- revisão de graça, cortesia de sua tia professora de português;
- venda direta ao leitor, sem passar por livrarias, ou seja, sem percentual de consignação.

4000 + 300 = 4300 reais

Você resolve estabelecer o preço de capa a 32,90 reais, pois é um livro grande e interessante, em sua opinião.
4300 ÷ 32,90 = 130.6

Isto é, você precisa vender aproximadamente 131 exemplares para recuperar o investimento feito, sem lucro algum.

Eu lhe asseguro que vender 131 livros não é uma tarefa fácil, principalmente em se tratando de obras de ficção.
Se você conseguir vender todos estes exemplares num ano, e outros 100 exemplares no ano seguinte, você terá um lucro total de 3290 reais. Se dividirmos este valor por 24 meses (dois anos), a sua renda mensal com o livro será de 137 reais.
Você já deve ter concluído que ainda não é a hora de largar aquela sua vaga no funcionalismo público...

No entanto, se você for um fenômeno de vendas independente e conseguir vender todos os mil exemplares em um ano, o seu lucro será 28600 reais, o que não é nada mal.
Contudo, vender mil exemplares de um único título ao ano é uma façanha até para autores consagrados, muito mais para um autor independente. Pode acontecer, mas é raridade.

Engolindo a indiferença

Agora, se a sua meta com a publicação independente nunca foi a de ficar rico nem a de vender milhares de exemplares, mas simplesmente de ter suas obras lidas pelas pessoas, o que é conhecido nos EUA como vanity press (publicação por vaidade), pior do que o prejuízo material dos livros encalhados, é como lidar com a indiferença.

Literatura é artigo de luxo e que a cada dia que passa perde espaço para mídias mais dinâmicas, como a internet.
Mesmo grandes autores tem dificuldades para conquistar leitores, então o cenário é muito menos estimulante para um autor desconhecido.
Publicar um livro, e não importa se é apenas um livro digital para download gratuito, e não ter leitores é a maior frustração da vida de um escritor.

Se você passar por esta situação, então resta 4 opções: 1 - desistir; 2 - tentar novamente as editoras comerciais; 3 - guardar na gaveta seus livros; ou 4 - tentar uma vez mais a publicação independente.

E o que fazer com os livros encalhados?

Você mandou rodar uma tiragem com 1000 livros, e vendeu 200, 100, ou nenhum exemplar. O que fazer com a centena de exemplares restantes?

Se você for do tipo egoísta, pode destruir, tocar fogo nos livros.

Se for do tipo altruísta, doar para bibliotecas, amigos, vizinhos, mendigos, deixar em bancos do parque...

Se for do tipo otimista, pode guardar num quartinho de sua casa, para quem sabe um dia, se você se tornar famoso, vender aqueles exemplares por milhões de dólares em alguma casa de leilão.

Conclusão

Os escritores não escolhem a publicação independente. Eles são arrastados para este mundo.

Por um lado, proporciona uma liberdade criativa imensa, sem a pressão do mercado de escrever para vender, mas, por outro, possui dificuldades imensas para quem não está preparado para o que virá.

Não é fácil se consolidar como autor independente, não é fácil vender livros em nossos dias (aliás, nunca foi), não é fácil encontrar leitores.

Se você ousou publicar independentemente seus livros, você já merece todos os louros pela coragem.

Se, por acaso, você for bem-sucedido, meus parabéns, pois passou pela prova de fogo. Porém, se fracassar, lembre-se que muitos grandes escritores também já estiveram em sua pele.

Ninguém disse que seria fácil a vida de escritor.

3 comments:

Valter Nascimento Coelho said...

Excelente artigo, o blog todo é de muito bom gosto! Parabéns

George dos Santos Pacheco said...

Excelente artigo, Henry Alfred Bugalho, tomei a liberdade de republicá-lo aqui no Revista Pacheco, lhe dando os devidos créditos, evidentemente. Um artigo com tamanha importância deve circular o máximo possível. Parabéns, e sorte a todos os escritores independentes.

Anonymous said...

Honestamente, a vontade de querer falar o obvio desnorteia muitas pessoas. O negócio é publicar. Este artigo é um tipo "se mata, para que serve a vida?".

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