Friday, October 05, 2012

O Muro de Indiferença, ou a invisibilidade dos candidatos a escritores



Você teve uma ideia brilhante para um livro? Gastou os últimos meses, ou talvez anos, desenvolvendo-a e pondo-a no papel? Sua obra está pronta e agora só falta publicá-la?

É neste ponto que o sonho de ser um escritor converte-se em pesadelo, ou melhor, é quando a realidade se mostra em sua mais crua e angustiante forma: qualquer um pode escrever um livro, mas não é qualquer um que poderá publicá-lo comercialmente.

A proliferação do talento

Até pouco tempo atrás, a ­escrita, ou pelo menos a escrita enquanto ­profissão, era uma tarefa para poucos ­afortunados.

Não era todo o mundo que tinha acesso a educação de qualidade, nem o domínio técnico da escrita para produzir bons livros. Assim como em outras atividades artísticas – nas artes plásticas, na fotografia, na dança, na música e no cinema – era necessário muito tempo de estudo e prática para se consolidar numa carreira, além de ter de estar no lugar certo, relacionando-se com as pessoas certas.

Inclusive, a quantidade de livros escritos, peças de teatro, filmes, canções, fotografias, etc., era muito inferior, apesar de já ser num volume muito maior do que qualquer ser humano pudesse assimilar.

O fato é que, da década de 80 para cá, publicou-se mais livros do que nos cinco séculos precedentes, ­quando ­Johannes Gutenberg inventou a ­imprensa.

A primeira constatação a partir desta explosão criativa foi que talento artístico não é uma exclusividade de uns poucos gênios.

Todavia, a segunda descoberta é que sempre haverá muito mais lixo do que obras de qualidade, pois nem todos que pensam ter algum talento o têm de fato, ou, o que é pior, às vezes um escritor talentoso acaba desperdiçando seu potencial em projetos ruins, somente na intenção de ganhar dinheiro ou ficar famoso.

O muro da indiferença

O capitalismo é brutal.

Ninguém precisa que eu afirme isto para perceber que o capitalismo funda-se na desigualdade econômica: alguns poucos ganham muito dinheiro, enquanto a maioria oferece sua força de trabalho por míseros trocados.

O sucesso de poucos depende necessariamente do fracasso de muitos.

Não sou contra o mercado de consumo, aliás sou o primeiro a reconhecer seus inúmeros benefícios. No entanto, quando se trata da criação artística e literária, estamos do lado de fora da indústria, fomos esquecidos por ela. Somos e fomos ignorados.

Se você, caro candidato a escritor, já enviou seus originais para algumas editoras e foi recusado, então já deve ter alguma ideia do que estou falando, senão, está na hora de você tentar.

Em janeiro de 2012, entrei em contato com quase trinta editoras para confirmar se estavam recebendo originais para análise, pois estas informações nem sempre estão muito claras nos sites delas.

Destas, somente três responderam, sendo que duas delas não recebiam mais material por não terem equipe suficiente para dar conta de todos os manuscritos que já haviam recebido anteriormente.
De trinta, somente três respostas!

As que informam que só analisam material enviado através de agentes literários já delimitaram sua política: “não trabalhamos com autores estreantes”. Pois qual autor em início de carreira possui um agente literário influente?

Em julho deste mesmo ano, contatei dez editoras, enviando algumas breves perguntas sobre o processo de seleção de autores estreantes e apenas a ­Soraia Reis, diretora editorial da Editora ­Planeta, respondeu*.
Agora, cá entre nós, se a equipe de uma editora é incapaz de ler e responder simples e-mails, você ainda acredita que eles lerão e darão alguma atenção ao seu livro de trezentas páginas?

Como escritor, eu não me importo se receberei uma carta de recusa na qual o editor afirma que meu livro é um lixo, que meus personagens são fracos, que não sei escrever, que não tenho nenhum futuro no mercado literário, pois, pelo menos, terei a certeza que fui lido, que alguém realmente dedicou um pouco de seu tempo para tentar encontrar algum valor naquelas páginas que me tomaram tantos dias para serem escritas e revisadas.

Pior do que a crítica negativa, ou até mesmo do que a crítica destrutiva, é a indiferença, a sensação que você é tão insignificante que não merece sequer uma resposta por e-mail.
Este é o cenário que você, escritor iniciante, encontrará diante de si.

Após mais de uma década escrevendo, conversando com centenas de escritores e participando de oficinas literárias, editando obras e revistas independentes, não conheço nenhum autor que tenha sido publicado por uma das grandes editoras do Brasil. Nenhum, absolutamente zero!

E isto porque eu, que não tenho nenhuma influência no mercado literário, já pude me deparar com escritores brilhantes, daqueles que escrevem histórias que reverberam em sua mente por dias e dias, de fazer os pelos de suas costas se arrepiarem durante a leitura. Vários deles não suportaram o muro de indiferença e hoje nem escrevem mais.

Alguns simplesmente não aguentam. Alguns não estão prontos para arcarem com o peso da invisibilidade.

A culpa é dos escritores?

Talvez os dois grandes erros de um escritor iniciante sejam a ingenuidade e a presunção.
Ingenuidade porque ele não dedicou algumas horas para tentar entender o mercado de livros, o que se tem publicado e como se aproximar das editoras.

Segundo Laura Bacellar, editora e autora da obra e site “Escreva seu ­Livro”: “qualquer nível de profissionalismo é tão raro entre autores brasileiros que ao fazer isso você já se diferencia do bando de uma maneira extravagante”. ­Soraia Reis, diretora editorial da Planeta, também defende o mesmo argumento: “Outro ponto importante é enviar o original para as editoras certas, ou seja, antecipadamente, verificar quais áreas e gêneros as editoras publicam, para não perder ­tempo.”

E não temos porque questionar que grande parte da responsabilidade do fracasso é do escritor, e é aí que entra a presunção, pois vários autores acreditam que suas obras são muito melhores do que realmente são, ou eles imaginam que revolucionarão o mundo da Literatura com suas “obras-primas” e que ninguém é capaz de reconhecer a sua genialidade.

Como aponta Bacellar, não basta que um romance seja bom, ele “precisa ter diferencial”, recomendação que se assemelha muito à visão de Soraia Reis, que um escritor deve “preparar um belo texto que se diferencie dos demais”.

Muitos escritores em início de carreira tendem a parasitar o estilo e os temas de seus autores favoritos, tentando reescrever, a seu modo, o próximo best-seller. Por mais que existam tendências recorrentes no mercado ­literário, é fundamental que o autor encontre sua própria voz, aquela que o distinga tanto dos grandes escritores do momento quanto de outros que também estão lutando por um lugar ao sol.

A indiferença das editoras talvez seja uma consequência direta da grande quantidade de material que recebem e que não possui o nível mínimo de qualidade para sequer ser considerada com atenção em um parecer inicial.

É incrível quanta gente se autoproclama escritor, mas que não consegue escrever com competência uma linha sequer de literatura relevante. E é justamente esta legião de pretensos autores que deflagra a avalanche de originais que se amontoam nas editoras por todo o Brasil, dificultando não somente o trabalho dos departamentos ­editoriais, como também a descoberta de algum trabalho de mérito entre tantos ­entulhos.

Mesmo assim, Soraia Reis é categórica em afirmar que “recebemos muitos originais, como já citado, mas dentre estes, podemos descobrir grandes pérolas, afinal, todo escritor um dia foi inédito, não é mesmo?”

Qual é o caminho das pedras?

Se eu pudesse lhe indicar este caminho, provavelmente nem estaria escrevendo este artigo. Talvez nem haja um caminho, a não ser o simples rolar dos dados da Fortuna.

Alguns conseguem, outros não: uma verdade definitiva da existência.

No entanto, nem tudo está perdido. O panorama é cinzento, as nuvens são carregadas, mas sempre há uma esperança.

Seguem algumas alternativas para o candidato a escritor:

1 - publicação independente

Autopublicar-se nunca foi visto com bons olhos por editores nem por ­leitores.

No entanto, tudo tem mudado tão rápido que, hoje em dia, com tantos casos de megassucessos instantâneos de autores publicados independentemente nos EUA, a autopublicação não apenas não tem sido mais observada com desconfiança, como agora a crítica tem se voltado contra as grandes editoras americanas.

“Como é que vocês não perceberam o potencial comercial deste autor que ­acaba de vender milhões e milhões de livros digitais?”, é a questão que se levanta, e muita gente tem começado a dar-se conta que nem sempre os editores são um bom referencial na hora de determinar o que é que os leitores realmente gostam.

2 - concursos literários

Ganhar algum prêmio literário importante, além de inflar seu ego e dar-lhe uns tostões, pode também atrair a atenção de alguma editora.

No entanto, cautela! Nem todos os concursos são confiáveis e alguns deles são obviamente com cartas-marcadas.

Os grandes concursos, entenda-se os que possuem um prêmio em dinheiro apetitoso, atraem tanto autores anônimos quanto consagrados, e você pode estar certo que, entre premiar ­Dalton Trevisan e você, eles escolherão o ­famoso.

3 - tente as pequenas editoras

Fechar um contrato com uma grande e influente editora é o ideal de todo o escritor, motivado principalmente pela ilusão que assim ele terá muito mais visibilidade nas livrarias e venderá muito mais livros.

Contudo, é preciso começar por algum lugar e existe uma porção de pequenas casas editoriais, às vezes no fundo do quintal do editor, dispostas a encontrar e publicar novos talentos.

Mas também não se engane... Quase sempre você terá de meter a mão no bolso e liberar uma verba para custear parte do (ou todo o) processo de publicação. E também divulgar muito e, comumente, vender de porta em porta seu próprio trabalho.

4 - oficinas literárias

Além de ser uma boa maneira para aprender técnicas novas e refinar a sua escrita, algumas oficinas literárias ministradas por escritores influentes podem lhe abrir as portas do mercado editorial, desde que seu material seja bom o bastante para ele querer ­recomendá-lo.

5 - escreva um blog

Se não é para ficar rico, nem famoso, nem conseguir publicar por uma editora grande, por que não criar um blog e divulgar seus textos lá?

Pelo menos assim você conquistará alguns leitores e, se seu blog fizer sucesso ou for muito polêmico, talvez até acabe fisgando alguma editora.

Há alguns casos de autores publicados que começaram desta maneira e que hoje estão por aí, vendendo livros e ganhando prêmios.

Mas, no final das contas, o que mais importa mesmo é ser lido e confirmar que as suas obras têm valor, que merecem muito mais do que indiferença.

Conclusão

Não existe fórmula para ser publicado, assim como não existe fórmula para o sucesso.

Se você pôs na cabeça que deseja ser escritor, então prepare-se para ser ignorado, rejeitado, recusado e criticado. Estas são as provas de fogo que você terá de enfrentar para confirmar esta sua decisão.

O fracasso estará aí, sempre espreitando do outro lado da porta, e, atrás do muro da indiferença, não está o fim nem as respostas, somente outras lutas e outras dificuldades a serem ­enfrentadas.

Às vezes, o caminho que parece ser o mais glorioso pode ofuscar as estreitas e obscuras trilhas secundárias, mas elas continuarão lá, prontas para quem ousar percorrê-las.

 * A Editora Globo nos enviou um e-mail informando que os “diretores estão fora da empresa e não poderemos dar a atenção que você merece.”


Soraia Reis, diretora editorial da Planeta, responde:

 1 - além de escrever um livro interessante, como deve proceder um escritor em início de carreira para despertar a atenção das grandes editoras?

Como você disse, escrever bem em primeiro lugar. O autor de ficção deve criar uma história encantadora, aquela que o leitor não tem vontade de parar de ler. Para isto o texto deve ter fluência. Já no livro de não-ficção, o autor deve conhecer profundamente sobre o que está escrevendo. Deve pesquisar, se atualizar. Em ambas as áreas, o escritor precisa se preparar. Após preparar um belo texto que se diferencie dos demais, pois as editoras recebem centenas de originais por mês, o autor deve fazer uma boa apresentação do seu trabalho e encaminhar a sua biografia anexa. Outro ponto importante é enviar o original para as editoras certas, ou seja, antecipadamente, verificar quais áreas e gêneros as editoras publicam, para não perder tempo. O autor deve ter paciência para receber a resposta também. Às vezes os autores inéditos enviam textos para avaliação e querem resposta em um mês. O processo não funciona assim, pois a pressa pode atrapalhar a avaliação.

 2 - um agente literário ou uma indicação influente facilita o processo, ou o escritor pode confiar que um livro com potencial será descoberto em meio aos demais originais que a editora recebe todos os meses?

 O texto precisa ser bom, condição primordial, mas quando um agente conhecido acredita no livro, já sabemos que devemos ler, pois ele já fez a primeira leitura. Afinal você conhece o trabalho de cada agente. Mas inúmeras vezes não contratamos livros vindos dos agentes e contratamos livros que recebemos direto. Normalmente o agente ajuda na divulgação do livro, como também a melhorar a forma do livro.

 3 - apostar em um autor nacional estreante é um risco? Por quê?

Tudo é risco. Por exemplo: compramos direitos de livros estrangeiros que venderam 1 milhão de cópias nos EUA, mais 1 milhão na Europa, e no Brasil não acontece nada. O editor apostou em um tema que agrada ao público brasileiro e que vendeu bem; a princípio, isto seria um bom parâmetro, mas não o é. Desta forma, o que pode vender? No que apostar? O editor não tem bola de cristal, mas o seu conhecimento e o seu faro podem ajudar. Seja o autor inédito ou não. Recebemos muitos originais, como já citado, mas dentre estes, podemos descobrir grandes pérolas; afinal, todo escritor um dia foi inédito, não é mesmo?

Laura Bacellar, editora, consultora editorial e autora de “Escreva seu Livro”, responde:

 1 - além de escrever um livro interessante, como deve proceder um escritor em início de carreira para despertar a atenção das grandes editoras?

Deve mostrar que sabe a quem se dirige, em primeiro lugar. Ter conhecimento do público com quem fala e, se possível, já se entender com ele – através de um blog ou rede social ou cursos ou palestras ou lá o que seja – é um megaponto a favor para ser levado a sério pelo editor.

Em segundo lugar, deve demonstrar que conhece o mercado. Os autores americanos já têm uma formulazinha para isso, sempre que apresentam um original a uma editora dizem com que outros livros e autores ele concorre, o que tem de melhor ou parecido com esses livros publicados (de sucesso) e como vai conquistar esse mesmo público que gostou desses outros livros, elencando as razões para gostar do seu.

Aqui isso não é tão difundido, mas uma postura como esta impressiona muito bem. Qualquer nível de profissionalismo é tão raro entre autores brasileiros que ao fazer isso você já se diferencia do bando de uma maneira extravagante, recomendo.

Em terceiro lugar, o livro precisa ter diferencial. Não é só interessante, precisa não ser igual aos milhares de outros na praça. É por isso que livros de contos costumam ser recusados, que romances sem algo marcante não sejam considerados. O autor deve pensar em algum diferencial que combine com seu estilo, sua vontade de contar histórias ou seu tema, e aprofundar essa diferença.

 2 - um agente literário ou uma indicação influente facilita o processo, ou o escritor pode confiar que um livro com potencial será descoberto em meio aos demais originais que a editora recebe todos os meses?

Já vi sucessos sem conta pelos dois caminhos. Um agente muitas vezes facilita a entrada numa grande editora, porque a obra tem todo o perfil de boas vendas ou muito prestígio. Mas o caminho por conta própria também é trilhável e ainda possível em nosso mercado; é mais uma questão de tentar. O que não pode é desistir na primeira. Muita gente me diz que enviou para duas editoras, foi recusado e desistiu. Eu rio. Duas? Eu já tive um original recusado por dez editoras, apesar de ser do meio e saber a quem me dirigir. Depois esse original foi aceito e publicado...

 3 - apostar em um autor nacional estreante é um risco? Por quê?

É um risco enorme, todo escritor tem que entender isso. Porque o editor não tem a menor ideia de como o público vai reagir àquele novo nome, àquele novo título. Pode não acontecer nada e todo o esforço resultar em livros parados no depósito. O autor precisa entender que é uma loteria publicar e fazer de tudo, absolutamente de tudo, para o livro ser um sucesso. Tem gente que fica largada em casa, achando que divulgação é trabalho da editora. Não é. O autor precisa divulgar feito louco, colaborar de todas as formas possíveis para o livro acontecer. E nem vai ganhar muito dinheiro com isso, mas se ganhar um certo nome, uma famazinha, já vale, porque o segundo livro fica muito mais fácil. Quem quer viver de escrita ou ser levado a sério precisa pensar estrategicamente na carreira, não em ganhar dinheiro com a primeira obra.

(Artigo publicado originalmente na Revista SAMIZDAT 34 - http://www.revistasamizdat.com/2012/09/samizdat-34.html)

2 comments:

SS Martinelli said...

Post esclarecedor.

Obrigada por postá-lo!

abraços

Glauco De Vita said...

Pelo que estou entendendo, parece um pouco o mercado da Música também. O vendável não necessariamente é bom e vice-versa; sem a tal da rede de contatos nada se faz, enfim... O caminho a ser percorrido é geralmente o extra-arte.

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