Wednesday, December 05, 2012

A Literatura está morrendo?



Um dos maiores prazeres dos teóricos é decretar a morte de alguma forma de expressão artística ou de alguma linha de pensamento.

Nietzsche foi um dos primeiros a decretar a morte da Filosofia e, depois dele, já sepultaram esta disciplina uma dezena de vezes. Foi após anunciarem a morte do romance que o nouveau roman, na França, e o realismo mágico latino-americano insuflaram uma sobrevida neste gênero literário, com algumas das obras mais brilhantes do século XX. Recentemente, li sobre a morte do cinema em The New York Times e, vez ou outra, escuto de alguns autores desesperados a prédica que a literatura também está, uma vez mais, agonizando.

Estamos, de fato, diante do fim da Literatura?

As transformações no mercado literário

Não podemos correr o risco de confundir o fim de um modelo de negócios com a extinção de uma forma artística.

Assistimos em tempo real a ruína do mercado literário, ou, pelo menos, suas profundas transformações. Nunca se escreveu, publicou-se e se comprou livros como em nossos tempos.

Definitivamente, a Literatura, entendendo isto de maneira abrangente como a atividade de escrita e publicação, não está nem perto de morrer. Contudo, o mercado editorial tradicional, com toda sua hierarquia de editores até imprensas, está seriamente comprometido. O mercado editorial está passando pela mesma crise que sofreu o mercado fonográfico alguns anos atrás e, assim como ocorreu antes, ninguém tem certeza que direção tomará esta revolução.

Atualmente, qualquer pessoa pode reunir seus textos num livro digital e publicá-lo online, para download gratuito ou para venda, através de inúmeros canais de distribuição. A quantidade de obras disponíveis é avassaladora e assustadora. Já existem casos de grandes sucessos dentre estes autores autopublicados, que, enfim, conseguiram cortar os intermediários, isto é, editoras e livreiros, aumentando seus lucros ou mantendo total controle criativo sobre seus trabalhos.

Alguns predizem que esta cacofonia literária implicará na impossibilidade de encontrarmos obras de valor em meio a tanto lixo, enquanto outros acreditam que esta enxurrada produtiva poderá conduzir-nos a um novo apogeu literário. Ainda não sabemos ao certo, pois estamos no meio deste furacão. Só teremos alguma clareza quando o pior houver passado.

O suposto fim do mercado editorial não significa, de maneira alguma, o fim da escrita ou da Literatura.

Formas decadentes

Por outro lado, devemos reconhecer que todas as formas artísticas possuem um ciclo de vida, de nascimento, disseminação, apogeu e declínio. Ao longo dos séculos, assistiu-se ao florescimento de várias formas artísticas que obtiveram grande adesão entre os artistas até que, finalmente, sucumbiram ao esquecimento ou se tornaram elitistas: a poesia épica, a música erudita, o balé e até mesmo o próprio teatro, para citarmos alguns exemplos.

Várias expressões artísticas outrora populares hoje são divertimentos mais sofisticados, para públicos restritos, como o jazz, a música de câmara, a poesia, pintura a óleo academicista; estão circunscritas a grupos especializados, mas que ainda são apreciadas e perpetuadas: ainda existem compositores de música erudita, ainda existem bailarinas.

Possivelmente, o cinema esteja mergulhando neste universo mais elitista, pois, com o advento da internet, quando há a possibilidade de baixar ou assistir qualquer filme online, o ato coletivo de dirigir-se a uma sala de cinema pode tornar-se mais raro. Ainda não estamos vendo este fenômeno no mundo da Literatura, mas nada nos garante que não ocorrerá num futuro (próximo).

Todavia, a decadência não implica necessariamente numa queda qualitativa. O soneto já era uma forma decadente quando Shakespeare produziu algumas das mais belas obras desta forma. O teatro já não tinha um apelo popular tão forte quando Beckett revolucionou a linguagem dramatúrgica. Portanto, uma eventual decadência da Literatura, ou seja, a perda de sua popularidade, poderia representar uma revolução interna, com o nascimento de obras inovadoras e extraordinárias.

Ficção literária X Mainstream

Outro problema que enfrentamos quando tentamos determinar a morte da Literatura é a famosa distinção entre “verdadeira literatura” (ou ficção literária, para os americanos) e a “literatura comercial” (mainstream).

O fato é que a vida nunca foi muito fácil para a ficção literária, com um número de leitores muito menor, apesar de ser recebida com uma complacência maior pela posteridade. Geralmente, os clássicos da Literatura pertencem à categoria da “verdadeira literatura”, apesar de haver casos de obras que eram comerciais em suas épocas e que sobreviveram ao teste do tempo.

Já a literatura mainstream é feita para o consumo instantâneo. É um produto de entretenimento, sem sérias pretensões literárias. São obras de fácil leitura, com escrita ágil e, não raro, mecânica, sem grande sofisticação estilística e com personagens unidimensionais. Usualmente, seus autores possuem consciência que não estão produzindo ficção literária e nem têm esta pretensão; desejam somente contar uma boa história e, se possível, lucrar bastante com isto.

Nem sempre é muito simples fazer esta distinção entre ficção literária e a mainstream, pois não podemos nos basear somente em dados quantitativos de vendas. Um livro pode ter características de uma obra mainstream mesmo que não venda um único exemplar, enquanto um livro continuará sendo ficção literária apesar de ter se tornado um best-seller (como costuma ocorrer com vários ganhadores do Nobel de Literatura). Esta diferenciação depende muito da intenção do autor e da materialidade da obra concluída. “A Trilogia de Nova York”, de Paul Auster, mune-se de detetives e de algumas características dos romances de mistério noir, porém, de maneira alguma se assemelha à narrativa ou à dinâmica de uma obra mainstream, é obviamente um romance literário. Já “Zahir”, de Paulo Coelho, por mais que se inspire num conto do argentino Jorge Luis Borges, por próprias propriedades narrativas, é uma obra mainstream, como todas as demais deste mesmo autor.

O que percebemos em nossos dias é que a literatura mainstream continua com grande força, enquanto a ficção literária permanece enfrentando as mesmas dificuldades de sempre.

O mercado editorial está passando por profundas e imprevisíveis transformações, mas a Literatura não está morrendo. Pelo menos, não por enquanto...

1 comment:

Hugo Cântara said...

Excelente post, muito elucidativo sobre o mundo actual da literatura.

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