Thursday, February 21, 2013

Nunca ganhei um concurso literário


Nunca ganhei um concurso literário, mas também nunca fui um concurseiro fervoroso.

Talvez no começo da minha carreira de escritor, quando eu ainda acreditava em duendes e Papai Noel, arrisquei-me mais, enviando contos para algumas dúzias de concursos.
Um deles apareceu numa antologia, custando-me 50 reais para incluí-lo lá. Outro deles ficou em sexto lugar num concurso do Paraná. Mas ganhar mesmo, nunca.

Perder nestes concursos literários vagabundos, que pagam pouco ou nada, nunca me irritou muito. O que me incomodava para valer era perder nos grandes, naqueles prêmios apetitosos valendo alguns milhares de reais.
Lembro-me como se fosse hoje quando participei pela primeira e única vez do Concurso Cruz e Souza (então, pensava que se chamava Souza Cruz, sem entender bem a relação entre uma fábrica de cigarros e o mundo literário). Enviei uma antologia de contos e aguardei ansioso pelo resultado, com premiação de 60 mil reais.
Na época, não tinha muito senso crítico para avaliar meu próprio trabalho, assim julgava como ótimos aqueles contos péssimos.
Revoltei-me ao descobrir o nome do ganhador: Miguel Sanchez Neto, um autor já estabelecido.

Foi o primeiro momento que constatei que, nestes prêmios grandes, participam de escritor mendigo a best-seller. E, geralmente, são os figurões que levam a bolada.

Mais recentemente, fui um das centenas de escritores que enviaram obras para o concurso "Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros", promovido pela revista britânica Granta. Eles escolheriam os 20 melhores autores e, mesmo sabendo que não sou uns dos 20 melhores, talvez nem um dos 300 melhores (mas possivelmente entre os 3 mil melhores), lancei a sorte com um trecho de um romance experimental.
A minha expectativa era a de que, nesta seleção, houvesse algum tipo de chacoalhão no establishment, uma renovação no cenário, a descoberta de alguns grandes talentos ocultos, tudo que o mundo da literatura brasileira sempre anseia.
Mas não! Sempre o óbvio, sempre esta insuportável obviedade.

Ontem, saiu o resultado do concurso Benvirá, da editora Saraiva, com prêmio de 30 mil reais e publicação do livro.
Ano passado, este mesmo concurso descobriu um promissor autor estreante e, provavelmente, vários estreantes viram aí a oportunidade. 30 mil reais não é pouca grana, ainda mais para um escritor. Se um autor ganhar 3 reais por cada exemplar, ele precisa vender 10 mil livros para angariar este montante.
10 mil livros é uma vendagem excelente mesmo para vários autores conhecidos, ainda mais para um estreante.
Só que, neste ano, o establishment venceu uma vez mais, optando por um veterano.

Quando você descobre o número de obras que este concurso recebeu, 1500 originais, a primeira coisa que se pensa é: "quem é o filho da puta que consegue ler mil e quinhentos originais?"

Eu não consigo. Num ano bom, leio uns 30 ou 40 livros, mas, no geral, se houver lido uns 12 já estou no lucro.
Então surge a desconfiança. Algum jurado conseguiu ler e analisar com atenção cada um destes quase 2 mil manuscritos? E mesmo se descartássemos aquelas obras realmente mal escritas, sobrando, digamos, umas 200, ainda assim, quem conseguiria lê-las todas?

O problema dos concursos literários é que não eles têm transparência alguma. Quem determina quais são os 20 ou 30 melhores livros dentre 2 mil? Quais são os critérios? O que eles estão procurando?

Ninguém sabe, e ninguém jamais saberá, pelo menos não deste lado dos escritores.

Ainda estou aguardando o resultado de alguns concursos grandes este ano, certo que também não ganharei. Agora, se ocorrer a improbabilidade matemática de eu levar algum destes prêmios, vocês serão os primeiros a saber.
Contudo, talvez tenhamos de esperar mais umas duas ou três décadas para isto, pois concursos literários parecem ter uma estranha atração por veteranos.

10 comments:

Simone Martinelli said...

ótimo post, tenho a mesma opinião sobre concurso; de fato eles são justo e isentos de favoritismo? Creio que infelizmente não :(

Victor Gomes said...

Cara, tô lendo aqui teu blog e tenho que dizer que gostei demais! Acho que é o décimo post que leio e com o qual concordo em tudo! =D

Ao ver esse aqui eu fiquei meio triste. Estou justamente escrevendo um pequeno livro que pretendo mandar a um concurso literário. Eu tenho essa suspeita de que será um tiro no escuro e não duvido nada que ocorra exatamente como vc diz: prêmios para os que não são novidade.

Mesmo assim, sou teimoso, persistente e um poquinho esperançoso e vou tentar! hehe

Parabéns pelo blog!

Abraço.

zé ruéla said...

estamos juntos meu caro,,abraços

Lucas Vitoriano said...

Tantos livros bons que nunca chegarão as estantes das livrarias... mas cinquenta tons de cinza ta ai com tudo ._.

Rodrigo Domit said...

acho que partiu de uma base muito personalista e de uma quantidade ínfima de concursos para delinear teorias que se sustentem

sugiro que leia as entrevistas que fizemos com gente que se destacou para a literatura através de concursos literários:

http://revistacl.blogspot.com.br/

e não tem nenhuma figurinha marcada ...


além disso, mesmo o vencedor do Benvirá sendo um autor com certa rodagem, não é nenhum medalhão conhecido e estabelecido

e tem mais, eles publicam outros autores, além do premiado ... na última edição, foram no mínimo 3 autores publicados pela Saraiva por conta da participação no concurso com obras que tiveram algum destaque

Henry Alfred Bugalho said...

Obrigado a todos pela leitura e comentários.

Sem dúvida que se trata de uma visão pessoal e limitada (aliás, como tudo neste blog e como tudo na vida), Rodrigo.

(In)felizmente, a literatura, os concursos e o mercado literário não são ciências exatas para que possamos prever os resultados. Basta que façamos assim que tudo dará certo. Basta escrevermos uma história com tais elementos, para tal público, com tal desenvolvimento e ela certamente agradará os leitores. Nada disto funciona...

Justamente por isto que, em minha visão pessoal e limitada do assunto, e por saber que, do outro lado, julgando e avaliando as obras em concursos literários, também existem indivíduos com visões tão pessoais e limitadas quanto à minha (em maior ou menor grau) que me sinto no direito de ser cético.

Inclusive, arrisco-me a insinuar que a visão do vencedor é ainda mais restrita e limitada, pois para cada vencedor, há centenas de perdedores, isto é, a maioria de nós, fato que me faz lembrar da afirmação de Adorno, em "A Indústria Cultural":

"Em lugar da via per aspera ad astra, que implica dificuldade e esforço, cada vez mais penetra a idéia de prêmio."

Quando a cultura de massas nos inculca esta ideia da premiação, de sucesso instantâneo e espontâneo através de uma distinção única, e, ao mesmo tempo, envia a mensagem a todos demais que esta distinção lhes será vetada, numa estranha relação de esperança e negação.

Por exemplo, durante a polêmica envolvendo o último prêmio Jabuti, o "jurado C" revelou, posteriormente, em entrevista, que nenhum dos jurados lê todas as obras que se inscrevem ao prêmio, somente umas 10 que eles já conhecem ou ouviram falar, ou seja, de todas as centenas de obras inscritas, somente uma dezena de autores tem realmente alguma chance de ganhar, o restante só vive na ilusão desta possibilidade.

Estou quase certo que, quanto mais concorridos e com prêmios mais volumosos, menos transparentes e justos tendem a ser estes concursos. Afinal de contas, é humanamente impossível que um pequeno corpo de jurados possa dar conta de um volume imenso de material, ainda mais quando estamos falando de romances.

Abraços a todos.

Rodrigo Domit said...

a questão é que há tantos concursos por aí ... e eles trazem boas oportunidades para escritores ... acho que você está subvalorizando os concursos - mas isso não quer dizer que eu os sobrevalorizo

claro que, assim como você, acho que não faz sentido acreditar no sucesso instantâneo e espontâneo, bem como concordo que, em alguns casos, optam por premiar o que já está aí ... mas empresto aqui algumas palavras do Tezza sobre o tema: http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=1252263&tit=Literatura-judiciaria

"A primeira coisa a lembrar é óbvia: todo concurso é falível e comete erros e omissões. Um concurso literário é apenas índice de valor de um momento, de acordo com as cabeças idiossincráticas dos jurados, e não uma decisão transcendente decretada pelas musas. Um corpo de jurados com predominância acadêmica, por exemplo, tenderá a valorizar determinada linha de produção literária; se houver predominância de jornalistas culturais, ou de escritores, os resultados serão outros. Bancas de dois ou três jurados costumam ser mais coerentes e objetivas (mas não necessariamente mais justas) do que as que contam com dez julgadores; muitas cabeças, sentenças demais. Quase sempre a premiação literária contraria o gosto popular; esta é uma das poucas áreas em que a democracia não funciona. Se o concurso é de livros publicados, o conjunto da obra do autor pode pesar no resultado. Enfim, há um emaranhado de variáveis que interferem nos prêmios que, ao fim e ao cabo, se resumem todas, simplesmente, a preferências estéticas e escolhas pessoais, o que é um duro equilíbrio. Concurso é um fenômeno errático que não deve ser supervalorizado.

Mas é bom que existam porque são uma opção importante para quem começa, desde que, como disse, o escritor não veja neles mais do que eles são. Um escritor sério não deixa de escrever porque perdeu um concurso, e nem se enche de vento porque ganhou."

E se quer saber um pouco mais sobre o processo de seleção do Benvirá, segue aqui:
http://www.thalesguaracy.com.br/artigo/273


Você tem todo o direito de ser cético e mesmo contrários aos concursos ... mas creio que acaba sendo injusto por criticar uma dúzia de grandes concursos em meio a centenas de médios e pequenos que se prestam justamente a revelar escritores


de qualquer forma, o debate é sempre muito válido ... grato pela atenção!


um grande abraço

Henry Alfred Bugalho said...

Eu já havia lido esta reportagem com o Tezza, Rodrigo, mas veja bem que em nenhum momento questiono os pequenos e médios concursos. Não duvido que alguns deles possam encontrar e divulgar novos autores promissores, pois são justamente estes novos autores que participam deles.
Dalton Trevisan ou Lobo Antunes não participam destes pequenos concursos, de modo a desequilibrá-los. Nem o volume de obras seja tão monumental a ponto de sermos obrigados a questionar a capacidade dos jurados de lê-las (apesar de superficialmente) todas, mesmo sabendo que há alguns bastante populares.

Para mim, o problema é acreditar na imparcialidade dos grandes.
Interessante este link que você passou sobre a seleção da Benvirá, e também interessante que a explicação apareça depois do resultado do concurso, e não no regulamento, como ocorre com o Prêmio Leya, por exemplo, que deixa claro que as obras passam inicialmente por pareceristas, para depois chegarem algumas aos jurados.

Veja o regulamento da Benvirá: "Para a seleção da melhor obra, a Editora Saraiva elegerá uma Comissão Julgadora apta a avaliar todos os originais de acordo com seus critérios editoriais e escolher o vencedor do presente concurso cultural."

Isto dá a entender que esta comissão julgadora, apta a avaliar TODOS os originais, terá algum contato com todas as obras. Nenhum software poderoso é mencionado, nenhuma triagem não-humana é mencionada, o que, por si só, já é bastante injusto a meu ver. Talvez um "Grande Sertão: Veredas" ou um "Finnegans Wake" jamais passasse por este software. Mas quem sabe o que eles estão procurando, não é?

Abraços.

Henry Alfred Bugalho said...

Aliás, uma ressalva, não duvido sequer que os grandes concursos também possam privilegiar, ocasionalmente, autores estreantes, mas isto é tão errático e incomum, devendo-se a algumas obras realmente extraordinárias, do que uma prática de fato. Acredito que, em caso de obras medianas ou somente boas, um grande nome tem algumas cabeças de vantagem.

Rodrigo Domit said...

nesse caso, restringindo-se aos grandes, especialmente os organizados por editoras, concordo contigo sem qualquer ressalva

um grande abraço,

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