Sunday, February 03, 2013

Os 7 piores finais possíveis para uma história


Você começou a escrever sua história, desenvolveu-a, criou seus personagens, as reviravoltas e tudo o mais.

Agora, você chegou, enfim, ao momento decisivo: daquele desfecho inesquecível.

Alguns teóricos americanos de roteiros afirmam que os dois momentos mais importantes de uma narrativa são o início e o final.
O começo porque será quando você convencerá os demais a continuarem acompanhando sua história.
O desfecho porque será a impressão definitiva que as pessoas levarão da sua trama.

Assim como ocorre com os inícios, muitos autores acabam recorrendo ao óbvio, em parte pelo medo de arriscar, mas também por acabar imitando tantas outras histórias que já viram por aí.

Abaixo, você encontrará vários tipos de finais recorrentes, que vemos nos livros, no cinema, nas novelas, até cansarmos. Evite-os, se puder, ou renove-os, se considerar necessário, mas, por favor, fuja dos clichês, pois nem você, nem seus leitores ganham com isto.

1 - Felicidade eterna


Mocorongo e Tansinha se abraçaram e se beijaram com a luz do sol poente abençoando o amor deles. Haviam passado por muitos desafios e dificuldades, mas agora estavam confiantes que nada jamais os separaria. O laço que os unia era maior do que tudo.
FIM

Esta é uma das heranças dos contos populares adaptados pela Disney.
Após muitas desventuras e perigos, o mocinho ou a mocinha conseguem superar todos os obstáculos, vencer os inimigos e, no final, tudo se resolve, com a promessa de serem "felizes para sempre".

Isto não quer dizer que uma trama não possa ser concluída num tom alegre, que eleve seus leitores. Inclusive, este tipo de final otimisma costuma ser um dos favoritos, pois, pelo menos, nos dá alguma esperança de felicidade neste mundo tão maluco.

O equívoco, ao meu ver, é a ilusão de que, com a solução dos problemas propostos naquela história particular, todos os problemas futuros também estariam resolvidos.
Felicidade é uma coisa, "felizes para sempre" é outra bem diferente.

2 - tudo não passou de um sonho/delírio


Zé-Ninguém despertou assustado, todo suado e trêmulo. Aquela série inacreditável de eventos havia sido apenas um terrível pesadelo, apesar de ter sido aparentemente tão real. Ele se beliscou, para constatar se realmente havia despertado.
Então, sorriu, levantou-se, vestiu os chinelos e foi até o armário para se trocar. Já amanhecia e ele precisava ir ao trabalho.
Um pesadelo, somente um pesadelo, cuja lembrança ele carregaria consigo durante muito tempo.
FIM

Este recurso, além de ser completamente amadorísco, é também muito irritante.
Concluir uma história com o personagem despertando de um sonho ou recuperando-se de delírio demonstra que o autor perdeu as rédeas do enredo em algum momento, permitindo absurdos tão absurdos que, no final, a única alternativa que resta é recorrer ao sonho, onde tudo é possível.

Se você gosta de tramas absurdas ou surreais, o melhor que pode fazer é levá-la até as últimas consequências, sem escorar-se numa técnica flácida e sem graça.
Fazer seu personagem acordar no final de um livro é quase tão insosso quanto fazê-lo despertar na primeira página, na verdade, é até muito pior, pois você conduz um leitor por páginas e mais páginas, convencendo-o a suspender a descrença, ou seja, levando-o a acreditar no mundo que você está criando, para, depois, jogar nele um balde de água fria.

Seja honesto com seu leitor.

3 - Múltiplas personalidades


O psiquiatra surgiu com uma pasta debaixo do braço, sentou-se diante do delegado e afirmou: 
– Sei que você adoraria culpar o Jeca por todos estes crimes, porém, o verdadeiro culpado é o Tatu. 
– E quem é Tatu? 
– Um desdobramento da personalidade de Jeca, sobre o qual ele não tem controle. Quando Tatu assume o domínio do consciente, ele é capaz de realizar as maiores atrocidades concebíveis. Tatu é o assassino! 
Jeca e Tatu, estas duas facetas de um mesmo homem, passariam o resto de seus dias num hospital psiquiátrico, envoltos num diálogo inaudível e secreto.
FIM

Há muito tempo, autores medíocres têm usado o transtorno de múltiplas personalidades (ou transtorno disassociativo de identidade) para explicar atos inexplicáveis de seus personagens.
No entanto, bons autores e cineastas também já usaram esta justificativa, de maneira até convincente. Consigo me lembrar de alguns casos, como "O Clube da Luta" de Chuck Palahniuk, "Psicose" de Alfred Hitchcock e "O Médico e o Monstro" de Robert Louis Stevenson.

Apesar de alguns exemplos clássicos, enredos com desfecho envolvendo este transtorno são, geralmente, deprimentes de tão ruins. É uma variação dos finais de sonho/delírio, pois demonstra que o autor não teve muita habilidade para conduzir os rumos da trama.

4 - O protagonista se suicida

Não haveria futuro para Borra-Botas... Sua vida não tinha sentido, ninguém o amava, ele odiava seu trabalho.
Fitou o rio escuro lá embaixo, enquanto os carros passavam atrás dele, iluminando a ponte com seus faróis.
Precipitou-se e, como um pedra, desapareceu no torvelinho das correntes.
Não faria falta a ninguém. A ninguém.
FIM

Este é o extremo oposto do final "felizes para sempre". Geralmente, o desfecho do suicida já indica uma história bastante depressiva, daquelas que nos obriga a digerirmos todas as angústias, enfermidades e traumas de infância do personagem.
Excetuando os casos do suicídio heróico, quando o personagem se sacrifica pelo demais, num último grande ato de bravura, que, convenhamos, também é um baita lugar-comum.
Não existe herói mais insuportável do que aquele que se mata para salvar os outros!

5 - O personagem morre de maneira inesperada e abrupta

O sinal de pedestres se abriu e Azarado começou a atravessar a rua. Foi estraçalhado por um caminhão sem freios, que pôs fim a seus sonhos e ambições.
FIM

Este final, no cinema, significaria que acabou o dinheiro. A produção simplesmente não tinha mais como arcar com os gastos e fez qualquer final para terminar a história.

Na Literatura, pode ser apenas o desleixo do escritor mesmo.
Na vida real, situações sem sentido como esta ocorrem todos os dias. Alguém está tomando um café na cozinha de sua casa, escorrega, bate a cabeça na quina da mesa e morre. Inclusive, estúpidos acidentes domésticos são umas das maiores causas de morte no mundo.
Todavia, a ficção é um mundo à parte, regida por regras próprias e que exige uma certa coerência, o que se denomina de verossimilhança interna.
Alguns teóricos mais radicais afirmam que qualquer cena, diálogo ou personagem devem mover a trama adiante, devem possuir um sentido, devem ter uma razão de ser.
Matar um personagem sem nenhuma causa aparente até pode ser realista, mas, para a ficção, cria um constrangimento no leitor por sua falta de propósito.

Se pensarmos em alguns clássicos da literatura, veremos como a morte do protagonista ou de algum personagem importante pode ser a decorrência lógica da trama, como o assassinato de Josef K. em "O Processo", a morte de Heitor em "Ilíada", ou a de Thomas em "Os Buddenbrooks" representando a decadência final de uma família de burgueses alemães.

Se for para matar algum personagem, que seja de maneira consciente e com alguma finalidade no enredo.

6 - Então veio Deus e resolveu todas as pendengas

(Imagem: William Blake)

O Bonzão havia caído nas garras de seu maior inimigo. Agora seria a morte certa, pois a lança do vilão estava a ponto de ser cravada na garganta do guerreiro.
Então, ouviu-se um som de trombetas e a cavalaria surgiu, com gárgulas terríveis pelos ares e serpentes que brotavam da terra e que, em um só bote, engoliram o vilão.

Vez ou outra, a história fica descontrolada e o autor tenta retomar o poder a todo o custo, recorrendo a soluções tão inacreditáveis que quebram a magia do enredo.
Os gregos – ah, os sábios gregos! – tinham um nome para isto: deus ex machina, isto é, o deus fora da máquina.
Esta é a hora que a mão do escritor pesa demais e ele tenta mudar todas as regras de maneira inesperada.

Lembra-se de quando falamos que um enredo ficcional precisa ter coerência, ter lógica?
É aí que o deus ex machina aparece para estragar tudo. E isto pode significar várias coisas: a chegada de um irmão-gêmeo ou de um personagem surpresa no final, alguma coincidência muito bizarra em favor do protagonista, algum milagre sem sentido, catástrofes naturais sem explicação, ou simplesmente criaturas sobrenaturais que surgem do nada.

O deus ex machina pode se manifestar em vários momentos do enredo, geralmente através de situações impossíveis que comprometem a verossimilhança interna da narrativa, mas um recurso deste no final do livro é imperdoável.

7 - Um bela lição de moral


Lambisgóia havia aprendido que, nesta vida, não devemos maltratar os animais nem os demais seres vivos, pois todos possuem a mesma essência cósmica das estrelas.
FIM

Este é outro resquício dos contos populares, que possuíam uma forte tendência pedagógica, ensinando através de exemplos. "Chapeuzinho Vermelho", "João e Maria", "A Branca de Neve", entre outros, nada mais são que fábulas sobre o bom comportamento, alertando as crianças sobre os perigos de se desobedecer os pais e os riscos pelo mundo afora, numa clara distinção entre bem e mal.

A não ser que você esteja escrevendo livros infantis, não há necessidade alguma de deixar clara a moral de sua história. Obviamente que sua obra terá um conteúdo ideológico, alguma tese que você estará defendendo, mas isto pode estar (e é melhor que esteja) diluído nas ações e falas de seus personagens.

Você não deve pensar que seus leitores são bestas ignorantes que precisam de tudo mastigado. Você pode criar tramas com sutilezas e refinamento, sem a necessidade de concluir seu livro explicando o que você queria dizer.

Conclusão

Assim como quando falamos dos piores começos, também é possível escolher qualquer um destes piores finais e torná-los bons.
Mesmo com o mais perigoso deles, o deus ex machina; consigo me lembrar do final de "Cem Anos de Solidão", com um evento tão surpreendente e incrível, porém ainda assim coerente no interior da proposta de García Márquez.

Uma vez mais, a capacidade de renovar, reinventar ou surpreender mesmo com os finais mais clichês dependerá da habilidade de cada escritor, no entanto, o que justificaria escrevermos as mesmas histórias, com os mesmos desenvolvimentos e os mesmos finais sempre?

Talvez um dos maiores méritos da Literatura seja esta possibilidade inesgotável de surpreender, apresentando-nos mundos extraordinários e, ainda assim, convencer-nos que tudo aquilo ali, que se transcorre em páginas e mais páginas, poderia ser tão real quanto o mundo concreto em que vivemos, dentro de suas próprias regras ficcionais.

6 comments:

Felipe Sali said...

Porém, todos esses finais (mesmo com um enorme potencial de ser uma porcaria) podem se tornar aceitáveis, ou até mesmo bons, dependendo da forma como são apresentados e escritos pelo autor. Não é mesmo?

Henry Alfred Bugalho said...

Você leu o artigo, Felipe?

"Assim como quando falamos dos piores começos, também é possível escolher qualquer um destes piores finais e torná-los bons."

Lucas Vitoriano said...

Quanto ao sexto "Pior final" o do deus ex machina, lembro de um livro que li. Acreditem pode ate não ter sido deus, mas foi Jesus que desceu dos ceus e pois fim ao vilão (??????).

Eu não suporto também os finais de delirio (em suas maiorias) pois ele "mata" toda a historia, todos os personagens criados, todas as situações, com esse final tudo não existiu. É verdade que se você pensar pela logiga nenhum personagem existe de verdade, são criações do escritor, mas nas historias eles "existem" sim, porem com o final delirio isso não ocorre.

Quanto a uma excessão que gostei com esse final foi "O labirinto de Fauno" ao qual mostra o poder que a inoscencia da protagonista a faz fugir da realidade cruel a qual vivia e criar um mundo paralelo, com seres fantasticos. Exatamente como toda criança sonha.

joaquim said...

Eh, eh! Muito elucidativo, de maneira divertida.
Eu já tive tendência para escrever finais de despertar de sonho.

Victor Gomes said...

kkkkkkk

Muito bom o post! Concordei em tudo!

Na boa, essa de acordar de um sonho é um coito interrompido e a da personalidade múltipla está terrivelmente clichê.

Larissa said...

Adorei o artigo. Concordo com tudo! Pensava que só eu ficava decepcionada com esses finais(livros, filmes). Todos esses fins são péssimos... Mesmo que o autor saiba reiventá-los, eu não consigo engolir. Parabéns pelo blog, estou lendo todos os artigos e apreciando muito!

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