Saturday, March 22, 2014

(Todas) as tarefas do escritor


Henry Alfred Bugalho

O mais óbvio e natural é pensar que o trabalho de um escritor é escrever... E ponto-final.
Uma trama tão desinteressante quanto uma história má escrita.

Na verdade, o trabalho de um escritor é muito mais abrangente e complexo, dividido em três etapas básicas:
1 - planejamento,
2 - execução,
3 - todo o resto.

Planejamento

Muitíssimos autores dedicam um tempo prévio para elaborar seus novos livros, enquanto outros optam por unir planejamento e escrita.
Não há uma fórmula segura e infalível, inclusive, livros distintos podem exigir planejamentos específicos.
Independentemente de qual seja seu estilo de planejamento, você provavelmente passará por várias ou todas destas seguintes etapas.

Inspirando-se em livros, filmes, canções ou outras formas de Arte

Todo escritor é, ou deveria ser, um grande leitor.
Acredito que, para a maioria dos autores, o desejo de escrever parte inicialmente do prazer causado pela leitura e do anseio por escrever histórias tão inesquecíveis quanto aquelas que admiramos.
Se você não gosta de ler, considerando a leitura uma atividade aborrecida, você nem deveria estar perdendo seu tempo escrevendo.

Ler muito e ler sempre é a melhor maneira para aprender com os mestres, sejam com os clássicos, sejam com os best-sellers. Todavia, uma simples leitura não basta: o escritor tem ser, acima de tudo, um analista, tentando compreender a mecânica do enredo, como foram construídos os personagens, os díalogos, as descrições, a ambientação.

Como o livro consegue causar tal emoção no leitor?
Qual é o tema do livro?
Como os personagens se transformam?
Estas e outras questões devem ser feitas e, de algum modo essencial, as respostas o auxiliarão na escrita de sua própria história.

Mas não somente isto.
Assista a filmes, seriados, novelas, peças de teatro, documentários e a tudo que puder. Escritores costumam ser péssimas companhias para ir ao cinema, pois os padrões narrativos são comumente tão previsíveis que, muitas vezes, você poderá detectar o desenvolvimento de uma história logo no começo e também aprenderá a captar as pistas que são lançadas no decorrer da trama.

Aprenda também a buscar inspiração em canções, em pinturas, na dança, na escultura. Às vezes, uma grande ideia pode surgir vendo uma pintura abstrata.
Nunca se sabe.

Pesquisar é essencial

Mesmo se você for um especialista no assunto que está abordando, por exemplo um ex-policial escrevendo um romance sobre a rotina de um investigador de homicídios, quase sempre você terá de fazer uma pesquisa prévia.
Escritores de romances históricos, ou com tramas que ocorrem em outras cidades e países, geralmente dedicam muito tempo de planejamento pesquisando detalhes para tornar sua história mais verossímil.

Que tipo de roupas eram usadas na Inglaterra vitoriana?
O que se come no Nepal?
Quais foram as consequências das guerras napoleônicas na Espanha?
Dependendo da ambientação e do período de sua história, você deverá estar preparado para fazer este tipo de questões e, o mais importante, obter uma resposta.
Isto não significa que você tenha de incluir a sua pesquisa na trama, mas isto o ajudará a enriquecer seu livro de uma maneira muito sutil.
Todavia, vale lembrar que o mais importante é a verossimilhança interna, isto é, que seu enredo faça sentido no interior do próprio livro e que seja convincente.
Nem todos os leitores serão historiadores, médicos, engenheiros, policiais, pilotos de avião, viajantes, ou experts em certas áreas ao ponto de questionarem os detalhes de sua história.
Você não precisa ter ido à guerra e matado pessoas para escrever sobre isto, mas obter um pouco de informação sobre como é esta experiência pode ser bastante útil.

Observar o mundo a seu redor

Acima de tudo, um bom escritor e um bom artista precisa ser também um bom observador.
Preste atenção aos comportamentos humanos, ao que as pessoas falam, como elas reagem em determinadas circunstâncias, como elas expressam o que pensam, quais são seus preconceitos, seus medos, suas manifestações de alegria.
Preste também atenção aos gestos, às expressões faciais, ao não-dito.
Observe também suas próprias sensações e sentimentos. Escrever é, acima de tudo, uma tarefa de autoconhecimento.
Pare um pouco para ver o movimento em uma praça, num shopping center, numa rua movimentada. Assista ao pôr do sol e admire como a tonalidade da luz se modifica no céu, nas pessoas e nos edifícios.
A lição mais essencial para criar Arte é aprender a ver o mundo com novos olhos, assombrando-se diante de eventos insignificantes. Aliás, nem sei se esta é uma habilidade que possa ser ensinada. Penso que o artista é aquele que já tem esta capacidade e expressa-a através de sua obra.

Fazendo um esboço

Esta é uma etapa muito pessoal.
Alguns escritores gostam de escrever uma sinopse sobre como será sua história, outros preferem indicar em tópicos os principais pontos da trama. Há aqueles que criam os personagens com riqueza de detalhes, às vezes até desenhando-os, outros preferem criar toda a história em sua própria mente.
Uma vez mais, não há uma fórmula. Cada autor precisa encontrar o melhor método para si.

Este projeto é apenas uma diretriz para como você desenvolverá sua história, não precisa ser uma camisa de força. Se você considerar que deve mudar algum ponto durante a escrita, não tenha medo.
As melhores histórias costumam ser aquelas nas quais os personagens criam vida e resolvem tomar o controle de seus próprios destinos.
Pode parecer um pouco surreal, mas você perceberá quando (ou se) isto ocorrer.

Execução

Então chegou a hora de sentar-se para escrever seu livro.
Você já tem uma ideia sobre o que escreverá, quais serão seus personagens, seu tema, já pesquisou bastante sobre o assunto, agora deve pôr a mão na massa.
Vai escrever diretamente no computador, à mão, numa máquina de escrever?
Isto não importa. O crucial é que você se sinta confortável com os materiais utilizados e que você tenha uma disciplina de escrita.
Um livro é feito de uma palavra após a outra, portanto, se você não dedicar seu tempo e criar uma rotina de escrita, há grandes chances de jamais concluir seu livro.

A Primeira Versão

Raramente um livro ficará perfeito logo na primeira versão, principalmente se for sua obra de estréia.
Na verdade, esta primeira versão deve ser, ou pode ser, um jorro criativo, na qual você lançará várias ideias, poderá divagar um pouco, fugir da rota traçada, inserir uma porção de personagens, testar um pouco os horizontes do enredo.
Mas não se iluda, a primeira versão é somente a primeira versão. Ainda haverá muito trabalho pela frente.

Edição e revisão

Você terminou a primeira versão.
O melhor que você tem a fazer agora é deixar seu livro quietinho, descansando por um tempo.
Pode ser por duas semanas, um mês, seis meses. O que você achar melhor.
Quando você voltar para reler este livro, há grandes possibilidades de você pensar que é um imbecil.
Como é que fui escrever esta merda?
Eu lhe asseguro que não será o único escritor no planeta a pensar isto. No entanto, paciência, pois é apenas a primeira versão.
Este é o momento de reler seu livro com muita atenção, analisando-o e vendo o que precisa ser editado, cortado, melhorado, reescrito, mudado de posição na história, que personagem é irrevelante ou mal explorado.
Para muitos autores, esta pode ser a etapa mais dolorosa, tendo de jogar fora páginas e mais páginas de material, por mais mal escrito que seja.
Contudo, cortar é preciso!

Uma vez terminada a edição, você pode deixar o livro descansando por mais um tempo para fazer posteriormente uma segunda edição, ou, caso considere a obra acabada, passar para a revisão, que inclui detectar erros ortográficos, gramaticais, de coerência (um personagem que se chama João num capítulo e, no outro, Joaquim) ou de fatos errôneos.

O melhor conselho que posso lhe dar é não ter pressa e não queimar etapas. A escrita, edição e revisão de um livro pode levar anos, às vezes décadas, para ser realizada satisfatoriamente.

Leitor crítico e leitor beta

Um leitor crítico é aquele que analisará minuciosamente sua obra e lhe dará recomendações sobre como melhorá-la. O usual é que cobrem por este serviço e não é barato.
Já o leitor beta é aquela cobaia que lerá (voluntariamente ou sob coação) seu livro e lhe dará um parecer pessoal sobre ele. Podem ser amigos, parentes, conhecidos, outros escritores ou alguns de seus fãs.
Após receber estas análises, fica a seu critério fazer ou não novas alterações em seu livro de acordo com as sugestões. Lembre-se sempre que opiniões são opiniões, mesmo se vierem de profissionais, e que uma pessoa pode detestar sua história, enquanto outra adorar.

Estas etapas não são imprescindíveis, mas altamente recomendáveis, especialmente se for no começo de sua carreira e você estiver bastante inseguro.

Todo o resto

As mais fáceis e prazerosas das tarefas do escritor passaram, todo o resto é trabalho duro.

Enviando o original para editoras

Se você não for um autor publicado, chegou a hora de correr atrás das editoras.
Este é o segundo grande funil da carreira literária, sendo que o primeiro era escrever um livro do começo ao fim.
Agora é a hora de uma segunda pesquisa para descobrir quais editoras publicam o tipo de livro que você escreve.
Vá a uma livraria e dê uma olhada nos títulos e quais são suas editoras. Anote o nome e o endereço delas. Geralmente, no site das editoras, há as informações sobre envio de originais, quais os procedimentos e se estão recebendo ou não.

Enviar um livro para uma editora é um tiro no escuro e as chances de ser publicado são irrisórias.
Portanto, não alimente grandes esperanças e já comece a conceber planos alternativos.

Preparando um livro para publicação independente

Você enviou seu original para meia dúzia de editoras e, após vários meses, você acabou de receber a última carta de recusa. (Aproveite para ler O que todo escritor deveria saber sobre ser rejeitado)

Primeiro, bate aquele desânimo, aquela vontade de mandar todo o mundo tomar no cu.
Depois vem um novo influxo de ânimo e você decide que fará tudo por conta própria.

Boa sorte e bem-vindo ao mundo da autopublicação!

Há três possibilidades:
1 - contratar uma editora que preparará o material e o trabalho gráfico para você,
2 - assumir conta de todo o processo, ou
3 - publicar na internet.

O primeiro pode ser mais barato, dependendo do caso, mas os lucros, se houver, serão muito pequenos.
O segundo é mais trabalhoso, mais caro, mas, se houver lucro, será todo seu.
O terceiro é o mais simples, rápido e indolor. Há vários sites, como Amazon e Smashwords, nos quais você pode fazer o upload de seu arquivo e, em minutos, estará vendendo seu livro digital.
A escolha dependerá do seu espírito empreendedor.

Fazendo o lançamento do livro

Se você optou pela rota tradicional, com livro impresso e tudo o mais, ficará tentando a fazer um lançamento.
Convide os amigos, parentes e todos os seres humanos que já passaram por sua vida, reais ou virtuais, para irem ao coquetel de lançamento.
A não ser que você seja muito popular, esteja preparado para ficar sozinho numa livraria esperando alguém vir.
É deprimente, mas real.

Divulgação

Toda a tarefa de divulgar seu livro e atrair leitores será da responsabilidade do escritor.

Mesmo se você houver sido publicado por uma grande editora, a não ser que você seja um figurão ganhador de prêmios e venda muito, quem terá de correr atrás de jornalistas (o papel da imprensa e da mídia na carreira de um escritor, o que muda?), promovendo sua obra em eventos, na quermesse da igreja, nas redes sociais, em cartazes em postes, será você.
Somente você!

"Descubrabilidade"

Uma das palavras da moda da era digital é discoverability, ou numa tosca tradução literal, "descubrabilidade", ou seja, a capacidade de algo em ser descoberto em meio a uma quantidade monumental de informações.
Milhões de livros são publicados em todo o mundo a cada ano.

Como é que você fará para que o leitor encontre e compre seu livro?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares e o terceiro, mais brutal e injusto funil de todos desta carreira.

A única solução para este sistema desigual é persistência e trabalho duro, conquistando um leitor por vez, criando uma presença no mundo virtual, participando de todos os eventos literários que puder.
Quem não se mostra não é visto, e quem não é visto não é lido.

Conclusão

O grande equívoco de quem vê de fora é pensar que um escritor é aquele que escreve.

Ser escritor é conceber, planejar e escrever um livro, mas também reescrevê-lo, reescrevê-lo, reescrevê-lo, revisá-lo, revisá-lo, revisá-lo, tentar publicá-lo, tentar divulgá-lo, tentar vendê-lo, tentar ser lido...

E começar tudo de novo com o livro seguinte.

1 comment:

Tales Gubes said...

Muito bacana este texto. Aliás, toda a proposta do blog. Parabéns. :)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Seguidores

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.